Alugar, não uma casa, mas meia cama!!!

Por Joaquim Armindo

Havia, naquele tempo, uma grande fome em Canaã, por isso Jacob enviou os seus filhos à terra do Egito para angariar comida. Teve sorte porque o administrador era José, filho mais novo de Jacob, o que levou Jacob e toda a sua família a emigrar para aquele país. Depois aconteceu que com outros governantes tiveram que “fugir” do Egito, para a Terra Prometida. Mas aqui o que queria destacar é a que a emigração de povos é muito antiga e os emigrantes devem ser bem recebidos, advindos até de uma “grande fome”. Mas, também, por outros motivos José e Maria, com o seu filho Jesus, tiveram de refugiar-se no Egito, para que ele “fugisse” do opressor Herodes, o motivo não foi a fome, mas a dignidade e os direitos humanos de viver, uma questão, talvez, mais “politizada”. Ao longo de toda a história existem outros exemplos de “fugas” pelos mais diversos motivos, apresento dois que me parecem característicos desta fase que vivemos no nosso país. Uma, a questão da fome que um “povo” viveu e se refugiou noutro país, onde foram recebidos. Outra, uma questão mais “religiosa” e “politizada”, a fuga do bebé Jesus com seus pais para um outro país, devido à forma brutal dos poderes políticos e religiosos à época.

Pelas mesmas razões ou outras hoje, homens, mulheres e crianças abandonam os seus países com dor e lamento, porque eram os seus lares, os sítios das suas convivências culturais e de costumes, e solicitam proteção noutros países. E vêm, tal como Jacob ou José, à procura de melhores condições de vida ou de paz e felicidade. Trazem consigo as suas tradições, os seus costumes, a sua cultura, os seus cantares, as suas religiões, aprendidas dos seus pais e avós, que deixaram, porventura, enterrados nas suas pátrias. Para os países que os recebem têm esta riqueza do convívio com outros povos, este intercâmbio entre pessoas que por qualquer motivo deixaram as suas queridas terras. Os países que os recebem devem ser gratos e fazer deles companheiros/as de caminhada.

Um destes dias ouvi, por boca de uma senhora da Cáritas Portuguesa, sobre as condições em que muitos destes emigrantes vivem e fiquei horrorizado. O meu país, país de navegantes e emigrantes, não pode terminantemente deixar que situações como as que foram contadas acontecerem. Bem, primeiro cabe-me dizer que, na minha opinião, o meu país, Portugal, deve receber todos os emigrantes que a nós se dirijam. Dá-se o caso de muitos emigrantes serem engajados por “máfias” visando o lucro fácil, no Porto e até na Maia, existem este tipo de coisas e que não poderemos tolerar. Pessoas que alugam quartos a emigrantes, para no dia seguinte dividirem este quarto em dois ou três, reduzindo o espaço para mais poderem ganhar, não é tolerável! Chega-se ao ponto de se alugar uma cama – de casal – a dois emigrantes, meia cama para cada um. Inconcebível! Crianças que já fazem das suas casas vãos de aeroportos ou de estações dos caminhos de ferro. Não! A solução não está em obstar a entrada de emigrantes, mas em ter condições de vida para eles. Não há país tão pobre, que não saiba repartir! Os emigrantes são bem-vindos, compete-nos a nós dar as condições dignas de viver.

A minha igreja, a de Jesus e Jacob, de José e Maria, não pode nunca ficar calada. Tem feito, a Cáritas Portuguesa é um exemplo, mas é necessário erguer a voz e falar sobre os telhados, senão as pedras falarão.