Faz, amanhã, cento e treze anos…

Por João Alves Dias

Por decreto do Ministério da Justiça (7/3/1911), D. António Barroso foi desterrado da sua diocese por tempo ilimitado.

Nesse dia, quando era conduzido da estação de Campolide para o Terreiro do Paço, onde um ‘simulacro’ de tribunal o condenou, foi apedrejado e insultado por populares, a maioria pertencente à carbonária.

No dia 9, seguiu, sob prisão, para o Colégio das Missões de Cernache do Bonjardim onde tinha sido aluno.

Em abril, foi obrigado a deixar o Colégio devido a um motim de alunos, instigados por líderes locais da maçonaria, e refugiou-se em casa do seu amigo, Dr. Gualdim de Melo.

Em junho, viajou para a sua terra de Remelhe, Barcelos aonde chegou no dia 10. Aí viveu, em exílio, até 1914.

E uma pergunta se impõe:

Que crime cometeu?  Este cidadão-bispo a quem Afonso Costa, no mesmo decreto que o ”destituiu das suas funções episcopais , concedeu uma pensão vitalícia anual, no valor de 1200$00 pelos serviços no ultramar e pelas suas virtudes pessoais” (Réu da República) o que ele sempre recusou receber?

Simplesmente porque, sendo bispo do Porto, foi coautor da Pastoral Coletiva dos Bispos; não proibiu a sua leitura na Diocese e teve a ousadia de lembrar a um ‘democrata’, a regra básica da democracia, ou seja, a separação dos poderes: legislativo, executivo e judicial:

“ Permita V. E. que, com vista nos altos interesses que me estão confiados, e que tanto importam ao Estado português,   eu venha pedir a V. E. que as medidas, que se diz  o Governo Provisório da República Portuguesa – Poder Executivo tenciona tomar, com respeito a assuntos eclesiásticos, não sejam decretadas antes da reunião da Assembleia Constituinte – Poder Legislativo – mas sim sejam a ela presentes.”

No número de Outubro/Dezembro, de 2023, do ‘Boletim do Venerável D. António Barroso’, de que é diretor, o Dr. Amadeu Araújo transcreve várias textos sobre o ensino/educação de D. António Barroso, em localidades e circunstâncias bem distintas, que revelam mais uma faceta admirável do ‘nosso’ Bispo Venerável, e nos surpreendem pelo seu caráter inovador e profético.

. Missionário em Angola (1880/1891) – Quando na Metrópole 90% das mulheres eram analfabetas, advoga o ensino das raparigas, com argumentos ricos de significado:

“Ao lado da escola para rapazes, deve haver a escola para raparigas: não sendo assim, nós estamos a civilizar meia humanidade, mas escapa-se-nos a outra meia, quiçá a mais importante, pelo predomínio que tem na formação dos costumes.”

Bispo em Moçambique (1891/1897) – Defende, como forma de emancipação, a criação de cursos profissionais para os ‘indígenas’:

“O que era para desejar seria que os pequenos arsenais da província fossem escolas práticas de ofícios, onde o indígena, junto com a língua portuguesa, a leitura e as quatro operações, pudesse aprender um ofício pelo qual se emancipasse da miséria e da vadiagem em que vive, podendo prestar assim ao europeu e ao desenvolvimento da província, os melhores serviços.”

Bispo do Porto (1899/1918) – Cria, no seminário diocesano dos Carvalhos, uma cadeira de Ciências Naturais, com o fundamento:

“Hoje mais que nunca, é necessário que os estudos feitos nos seminários diocesanos estejam em harmonia com as tendências do século, e que aqueles que lá se preparam e adestram para as lides do sacerdócio, quando deixarem a escola e empreenderem a ação social, possam levar a luz (…) Tomem-se como norma os grandes trabalhos de ciências naturais apresentados nos congressos de Bruxelas, Paris e Frigburgo”.

Quanto mais se conhece o seu pensamento e a sua obra mais se admira este ‘missionário’ que um dia (7/5/1889) afirmou: “Deve o missionário africano ser padre e artista, pai e mestre, doutor e homem da terra; deve tão depressa tomar a estola, como empunhar a picareta para arrotear uma courela”.

 Como foi possível a sua condenação!?…

Só a prepotência dum radicalismo ideológico num ateísmo militante a podem explicar, mas nunca justificar e muito menos legitimar…

O mal não estava na República – o anticlericalismo já vinha dos tempos da Monarquia –  mas, sim, na sanha maçónica e carbonária dos seus governantes. Há quem tenha o condão de conspurcar a água que bebe…