O Cinema visto pela Teologia (102): “Os Excluídos”

Uma leitura do filme “Os Excluídos

Por Alexandre Freire Duarte

“Os Excluídosé uma comovente comédia dramática belamente construída, seja para parecer algo dos anos setenta do século passado (na estética e na densidade das personagens), seja para nos tocar bem fundo. E tocar-nos com um elenco suculento de realidades: o conforto esperançoso; as sábias piadas certeiras; a atrevida denúncia social; o chamar de atenção para os “últimos”; a autenticidade transmitida pelas figuras que a conduzem nas suas linhas e sub-linhas narrativas (abertas como a vida e a humanidade).

Como disse o filme avança com as suas personagens e interações entre estas. Três em especial, cada uma dilacerada a seu modo. O brilhante Giamatti (misantropo, brusco, injustiçado e ferido); o novato Sessa (inteligente, magoado, atormentado e revoltado); Randolph (em luto, sensível, graciosa, perseverante e firme). Todos os três encaixam entre si na perfeição e formam, com a ajuda de um conjunto discreto de outros atores, um filme de afetos que leva a sério que o Natal é das épocas mais tristes para quem está só.

Como teólogo, o que vi neste filme tocou-me imenso em três aspetos relacionados com os sobreditos três protagonistas que se unirão, no meio de riscos, num amor sério.

Giamatti recorda o quão delicado é trabalhar numa instituição cristã em que o comum dos seus empregados não é cristão. Além do mais, ele é quem é por, não tendo (no passado e no presente) apoios influentes e sendo honrado, se viu rebaixado a fazer (e a ser) menos do que os vaporosos poderosos que o prejudicaram. Vítima, pois, dos hipócritas a quem Jesus chamou duramente de “assassinos”. Palavra terrível, esta, dita por Alguém que geralmente não censurava, antes polia, auxiliava, alteava e consumava.

Sessa é o fruto de uma família com prioridades desequilibradas, na qual o amor e o apoio aos mais vulneráveis parecem ausentes, em detrimento da busca da aparência do que cintila: o dinheiro, a aparência, o prestígio. Nada de um matrimónio que é o belo sacramento que acende tudo o que de mais elevado há no ser humano. Eis o húmus para uma vida torturada. Por fim, Randolph é, mesmo na sua dor, a âncora emocional do trio, servindo de apoio, não só pelo que faz e diz, mas por viver descentrada de si mesma e apelar a que os demais também o façam, seja por integridade, lealdade, espírito parental e calor ante vidas em alteração. Claramente cristã, ela educa no: doar, se doar e perdoar.

As refeições partilhadas, como as de e com Jesus, apontam para que todos somos seres humanos imperfeitos; potencialmente exasperados e exasperantes. Pessoas reais, verdadeiras, delicadas (mesmo que sob carapaças rijas que mutilam a afetividade) e, aos olhos de Deus – que deviam ser cada vez mais o modelo dos nossos –, nobres e com um valor infinito, pois Ele nos vê, não tanto como somos, mas como podemos ser face à Sua esperança de amor. E sê-lo, também pela adversidade que renasce na alteridade.

Oh como é libertador dar graças pelo que de mais tinhoso há em nós e nos demais que nos influenciam se for para sair do isolamento em que se poderá estar a viver, até no meio de centenas de “amigos”. Oh como é redentor ser genuíno na envolvência comum que, mesmo no meio de incompreensões e de sacrifícios de amor que derrubem (auto-)confinamentos, nos mostra nataliciamente que os demais são parte de nós e, como nós, estão chamados a serem membros em sinfonia de um só Corpo cujo Coração é Jesus.

(EUA; 2023; dirigido por Alexander Payne; com Paul Giamatti, Da’Vine Joy Randolph, Dominic Sessa, Andrew Garman e Carrie Preston)