Da história da música para a liturgia: Domingo III da Quaresma

Foto: João Lopes Cardoso

Por Bruno Ferreira*

Couperin: Ad te levavi óculos meos

 

Latim:

 

Ad te levavi oculos meos,

qui habitas in caelis.

Ecce sicut oculi servorum

in manibus dominorum suorum;

sicut oculi ancillae

in manibus dominae suae:

ita oculi nostri

ad Dominum Deum nostrum,

donec misereatur nostri.

Miserere nostri, Domine,

miserere nostri,

quia multum repleti sumus despectione;

quia multum repleta est

anima nostra opprobrium abundantibus,

et despectio superbis..

 

[Salmo 123 (122), (Vulgata clementina)]

 

 

Tradução portuguesa:

 

A ti elevo os meus olhos,

para ti que habitais nos céus.

Assim como os olhos dos servos

para as mãos dos seus senhores;

como os olhos da escrava,

para a mão da sua senhora,

assim se voltam os nossos olhos

para o Senhor nosso Deus,

até que ele tenha piedade de nós.

Tem piedade de nós, Senhor,

tende piedade de nós,

já muito nos encheram de escárnio,

estamos demasiado cheios

com o escárnio dos foliões,

do desprezo dos orgulhosos.

Para o Terceiro Domingo da Quaresma, em que o tema do olhar e dos olhos é recorrente em várias partes do Proprium, sugerimos a escuta de um interessante motete de François Couperin (1668-1733), o mais famoso membro de uma família de músicos do período barroco francês.

Couperin, que foi muito ativo como organista e tocador de instrumentos de tecla, deixou uma extensa produção de peças para cravo solo (muito admiradas por Johann Sebastian Bach, entre outros), mas também um copioso legado de peças sacras, incluindo muitas obras-primas para órgão.

O seu Ad te levavi oculos meos (), que põe em música o texto do Tractus (que na Quaresma substitui o Aleluia) prescrito para este Domingo, enriquecendo-o com uma doxologia final que sublinha como o texto engloba todo o texto de um Salmo (o 122), é uma notável composição para voz baixo solista com acompanhamento instrumental de “sinfonia” (ou seja, dois violinos e baixo contínuo). Na escrita instrumental, ágil e viva, pode reconhecer-se a influência em Couperin de Arcangelo Corelli, mestre incontestado da escola romana que levou a técnica do violino e a escrita para cordas ao mais alto nível no período barroco.

A peça abre com uma secção instrumental, na qual os dois violinos conversam entre si com brio e fantasia; o seu tema é depois retomado pela voz, que entra com as palavras “ad te levavi oculos meos“. Esta secção inicial da peça assume assim a forma de um verdadeiro terceto entre o baixo e os dois violinos, em que a voz e os instrumentos se cruzam em combinações variadas feitas de imitações e passagens paralelas. Por diversas vezes, Couperin utiliza um movimento melódico ascendente, simulando a direção do olhar que procura o Deus “que habita nos céus”.

Uma segunda secção, nas palavras “ecce, sicut oculi servorum“, contrasta, no entanto, precisamente neste aspeto com a anterior: aqui a voz do baixo está desprovida da moldura alegre dos violinos, e parece sugerir, na sua solidão, o olhar perdido, quase de uma criança assustada, com que o homem procura o seu Deus “como servos” que se voltam com expetativa trepidante “para a mão dos seus senhores”.

O mesmo orgânico (novamente sem violinos, portanto) persiste na secção seguinte (“sicut oculi ancillae“), na qual, no entanto, a música toma um rumo um pouco mais animado graças ao tempo ternário e à incidência das colcheias do baixo contínuo instrumental. No entanto, quando este movimento se extingue, regressa a escrita sóbria da secção anterior, enquanto o baixo entoa uma oração cheia de esperança e súplica.

O regresso dos violinos, na secção indicada como “mineur” na partitura, é de facto um sinal oposto à vivacidade inicial: aqui, dos violinos, Couperin utiliza o aspeto expressivo e comovente, muito mais do que o brilho que tinha inaugurado a peça. “Miserere nostri Domine”: a voz do baixo pede misericórdia a Deus, e os instrumentos retomam a marcha e o ritmo descendentes, quase ecoando ou reforçando com os seus sons a invocação do cantor.

Na secção seguinte, a motivação da oração (“qui multum repleti”) incita o compositor a propor uma mudança de ritmo: o orador parece ter encontrado forças para corroborar a sua oração com uma descrição da situação de exaustão em que se encontra.

No entanto, com o regresso das palavras “miserere nostri“, regressa também o tempo calmo e concentrado, seguido novamente pela secção “alla breve“, mais animada, em tempo binário, sobre as palavras “quia multum repleta“. A representação musical dos orgulhosos é várias vezes confiada a amplas vocalizações, que parecem representar a vaidade dos orgulhosos, enquanto a última invocação “miserere” restabelece a atmosfera de recolhimento íntimo.

Esta situação é contrastada pela doxologia final, na qual o modo maior regressa e encontramos uma série de vocalizações alegres que sugerem a esperança de que a oração foi atendida; reforçando este sentimento vem a longa sequência de “amen“, não só a conclusão normal da oração, mas talvez também representando a aceitação benigna de Deus da própria oração.

*sacerdote e aluno de Composição no Pontifício Instituto de Musica Sacra (PIMS), em Roma