Renuncias? Crês?

Por Secretariado Diocesano da Liturgia

Há famílias «de bem» que não se contentam com os seus párocos e que, certamente por míngua de formação, à verdade e beleza intrínseca dos sacramentos preferem o espetáculo e a mundanidade que por vezes os rodeiam. Verdade se diga que, não raras vezes, os pastores da Igreja são negligentes, apressados e descuidados, degradando a celebração dos Sacramentos em «despacho» mais ou menos aborrecido, em que o «assombro» e enlevo perante o mistério se tresmalham. E para quem quer melhor – com quanta ingenuidade! – e não se importa de pagar algo mais (linguagem venal, a raiar o simoníaco), vão surgindo alternativas «no mercado»! De facto, é possível encontrar pastores que se apascentam a si mesmos, apropriando-se do maior tesouro do Povo Santo e manipulando a seu bel prazer os sacramentos da Igreja, como se de coisa privativa se tratasse.

Um desses presbíteros da moda, frequentemente requisitados para casamentos e batizados, foi convidado por uma família para presidir ao batismo de um rebento querido. O pároco do lugar, já prevenido acerca da «inventividade» do ministro pretendido, não se opôs ao desejo da família mas fez uma advertência: que se seguisse o Ritual da Igreja Católica. Aconteceu, porém, que sem cuidar da recomendação, o oficiante omitiu as renúncias previstas pelo Rito, antes da Profissão de Fé. O pároco, legitimamente, interpelou-o sobre essa omissão que poderia ter sido inadvertida e, portanto, não intencional: todos podem ter uma distração! Mas o interpelado replicou que não seguia essa parte do Rito: nos batismos que celebrava, nunca convidava às renúncias… Surge, por isso, a questão: serão válidos os batismos celebrados por esse presbítero com essa omissão deliberada? Não estará comprometida a intenção devida do ministro? Porque, para haver Batismo, não basta a tríplice imersão ou infusão com água enquanto se diz a fórmula prevista – «N., Eu te batizo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo!». É necessário, além disso, que o ministro tenha a intenção de fazer o que faz a Igreja quando batiza. A partir do momento em que não se respeitam os livros litúrgicos aprovados pela autoridade competente da mesma Igreja, a dúvida insinua-se. Mas quando se mutila propositadamente o rito legítimo, a incerteza agrava-se.

É conhecido o caso dos Mórmons («Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias») que batizam com água e com a fórmula triádica – «… Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo». Só que o conteúdo de fé evocado com essa fórmula é bem distante do da doutrina trinitária das Igrejas cristãs pelo que, embora usando uma fórmula idêntica, os ministros mórmons colocam nela um conteúdo distinto e por isso, a sua intenção não coincide com a da Igreja Católica e demais Igrejas cristãs que professam a fé trinitária. Consequentemente, esse batismo não é válido e, se alguém tiver sido «batizado» numa comunidade mórmon e mais tarde aderir à fé cristã e quiser ser recebido na comunhão da Igreja Católica, deverá ser batizado não de novo (dado que o primeiro Batismo não foi válido) mas sim pela primeira vez. No caso de pretender contrair matrimónio com cônjuge católico, deverá requerer-se dispensa do impedimento de «disparidade de culto».

Note-se que o caso agora referido não parece comparável, em termos de gravidade, com a situação do batismo mórmon. E tenha-se em conta que, ao longo da história, a Igreja católica sempre manteve a presunção de validade mesmo de batismos em contextos de heresia. Poderiam referir-se tomadas de posição do Papa Estêvão I (254-257), do concílio de Arles (314), da luta de Agostinho contra os donatistas defendendo a validade do Batismo apesar de conferido por ministros indignos e separados da Igreja: é sempre Cristo que batiza! Na época da Reforma protestante, o Concílio de Trento reafirmou essa posição da Igreja que consta do atual ordenamento jurídico-canónico e do Catecismo da Igreja Católica. Contudo não deixa de se requerer que o ministro do sacramento tenha a intenção devida: fazer o que faz a Igreja católica quando batiza.

Na pregação kerygmática de Jesus a anunciar a Boa Nova do Reino, a adesão ao Evangelho andava intimamente unida à exigência de metanoia. Já Paulo refere, no documento mais antigo do NT – 1 Ts – que a adesão de fé é indissociável do abandono de tudo o que à fé se oponha: «convertestes-vos dos ídolos a Deus, para servirdes o Deus vivo e verdadeiro» (1Ts 1, 9). O mais antigo «regulamento eclesiástico» que nos chegou de finais do séc. I, inícios do II – a Didaquê ou Doutrina dos Doze Apóstolos – já dedica boa parte do seu texto à doutrina dos dois caminhos, que para sempre estará associada à pedagogia catecumenal e à indispensável opção em que renúncias e profissão de fé são indissociáveis. São Justino (+165), na sua Apologia I já era explícito: «A partir do momento em que acreditámos no Verbo, renunciámos ao culto dos Demónios, para nos unirmos, pelo Filho, ao Deus não gerado» (14, 2). O Ritual da Iniciação Cristã mais antigo que nos chegou – a Tradição Apostólica (c. 215) – também já nos apresenta o rito da renúncia como elemento prévio e indispensável da profissão de fé que é feita no próprio ato do Batismo. Leia-se, no n. 21: «Renuncio a ti, Satanás, a toda a tua pompa e a todas as tuas obras». E não há rito antigo ou moderno, do Oriente cristão ou do Ocidente, em que não esteja presente a renunciação como pressuposto inseparável da profissão de fé sem a qual não há Batismo… Por isso, nos interrogamos: será válida uma celebração solene do Batismo em que o ministro, de forma consciente e deliberada, omite a renunciação? Não estará a sua intenção, deste modo, dissociada do que a Igreja sempre fez e quer e, consequentemente, não estará gravemente comprometido um requisito indispensável para uma celebração válida do Batismo? Deixamos a quem de direito a resposta segura e autêntica, mas aqui fica a inquietação da pergunta.

Terminamos com uma advertência do Papa Francisco que deve ser levada muito a sério por todos e sobretudo pelos que confundem «criatividade» com invenção e manipulação ritual e «arte de celebrar» com protagonismo egolátrico e exibicionismo bacoco: «Entendamo-nos: todos os aspetos do celebrar devem ser cuidados (espaço, tempo, gestos, palavras, objetos, vestes, canto, música, …) e todas as rubricas devem ser observadas: bastaria esta atenção para evitar subtrair – «subtrair» é um eufemismo para dizer «roubar» – à assembleia aquilo que lhe é devido, isto é, o mistério pascal celebrado na modalidade ritual que a Igreja estabelece» (Francisco, Desiderio desideravi, 23).