O processo sinodal não vai acabar

Foto: João Lopes Cardoso/JMJ Lisboa 2023

Segundo o Relator Geral do Sínodo o processo sinodal não vai acabar em outubro. Revelamos aqui dados da Rede Sinodal em Portugal que tem vindo a acompanhar o que cada diocese está a fazer preparando a segunda sessão do Sínodo. Destacamos o trabalho que está a ser feito na diocese do Porto, recordando a síntese sinodal diocesana de 2022. Um documento que apresenta propostas a desenvolver e sublinha a necessidade de uma escuta alargada aos vários setores pastorais.

Por Rui Saraiva

De 19 a 23 de fevereiro os bispos portugueses reuniram-se em Fátima em retiro espiritual de Quaresma. Segundo informou a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), a orientar o retiro esteve o cardeal Jean-Claude Hollerich, Relator Geral da XVI Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos.

Em declarações à Agência Ecclesia sublinhou que o processo sinodal “não vai acabar em outubro” e deu como exemplo a recente decisão do Papa Francisco de criar grupos de estudo sobre os temas propostos pela primeira sessão do Sínodo que teve lugar em outubro de 2023. Grupos que envolvem os dicastérios da Cúria Romana, sob a coordenação da Secretaria Geral do Sínodo.

O arcebispo do Luxemburgo afirmou que estes “grupos de estudo vão continuar” e que terão de “respeitar o que o povo de Deus disse”. “É um momento muito frutuoso, com muita reflexão. O que é novo é que estes grupos de estudo, mesmo que sejam teólogos, mesmo que sejam canonistas e cardeais, têm de discutir de uma forma sinodal e têm de respeitar o que o povo de Deus disse”, revelou o purpurado.

O cardeal Hollerich salientou a importância do processo lançado pelo Papa em 2021 considerando que oferece à Igreja um “instrumento” para enfrentar as questões que se levantam, na atualidade. “A sinodalidade dará à Igreja um instrumento para enfrentar as grandes questões que se colocam, de uma forma serena, sem polarizações”, disse o cardeal.

Dioceses em caminho

Em Portugal, o Conselho Permanente da CEP enviou a 9 de janeiro orientações para as dioceses pedindo que a reflexão incidisse, em particular, nos capítulos 8-12, 16 e 18 do Relatório de Síntese da XVI Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos. Um processo de trabalho proposto pela Secretaria Geral do Sínodo a 12 de dezembro e que tem a seguinte questão orientadora: “Como ser Igreja sinodal em missão?”

A Rede Sinodal em Portugal tem vindo a acompanhar o que cada diocese está a fazer. Com a informação disponibilizada por este site revelamos aqui, a título de exemplo, os percursos de Vila Real, Lisboa e Aveiro. Estas dioceses foram as primeiras a ser citadas nas publicações regulares que a Rede Sinodal em Portugal tem vindo a fazer desde dia 6 de janeiro.

A diocese de Vila Real quer envolver toda a diocese na caminhada sinodal e, assim combater o alheamento. Para isso tem preparada uma estratégia de encontros que estão a decorrer.

Segundo a equipa sinodal daquela diocese estão a ser envolvidas “todas as estruturas diocesanas no processo de escuta”. Informam ainda que elaboraram “uma proposta e um calendário, bem como uma ficha de trabalho, para ajudar a uma melhor organização desta fase a nível diocesano”, revela a Rede Sinodal em Portugal.

No Patriarcado de Lisboa, ainda se sentem os ventos favoráveis da Jornada Mundial da Juventude de agosto e os jovens reuniram-se em dezembro passado no Fórum “Geração Rise Up” em ritmo sinodal. Decidiram prioridades pastorais e alinharam as suas reflexões com as temáticas abordadas no Relatório de Síntese do Sínodo.

Entretanto, os delegados sinodais de Lisboa estão a dinamizar as comunidades. Segundo a comissão sinodal daquela diocese esses delegados reuniram-se em assembleia em janeiro e estão agora no terreno a reunir os agentes de pastoral, informa a Rede Sinodal em Portugal.

Nesta curta síntese sobre o caminho sinodal nas dioceses portuguesas, revelamos ainda que a comissão sinodal da diocese de Aveiro está a estudar o Relatório de Síntese, com a “preocupação maior de não deixar morrer o dinamismo sinodal”.

Nesta fase de preparação para a segunda sessão da Assembleia do Sínodo “foi enviado aos arciprestes um conjunto de perguntas para serem analisadas” e cujo “eco será dado em finais de fevereiro”. Depois desta fase, “a comissão diocesana fará a sua reflexão considerando os contributos” e o “conselho diocesano de pastoral também se irá debruçar sobre a sinodalidade”, revela a Rede Sinodal.

Rede Sinodal em Portugal

Estas e muitas outras informações podem ser encontradas no site Rede Sinodal em Portugal inteiramente dedicado ao Sínodo no endereço www.redesinodal.pt. Este site foi criado na Solenidade da Epifania do Senhor, manifestando a esperança de abrir um espaço de informação sobre o Sínodo em Portugal. Uma rede sinodal que partilhe informação, fazendo caminho na pluralidade e diversidade, propondo o tema deste processo sinodal: comunhão, participação, missão.

O novo espaço digital já atingiu mais de 5000 visualizações. Tem sido visitado sobretudo por utilizadores de Portugal, Estados Unidos da América, Espanha, Itália e Brasil. Este site teve no primeiro mês uma média de 15 novos utilizadores por dia.

Este novo endereço digital, que funda uma rede sinodal, nasce do espírito do livro “Não temos medo – Reflexões sobre a Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023 e o caminho sinodal”. A multidão de jovens de mãos dadas em Lisboa, sem preocupações com hierarquias e lugares, celebrando a paz e a fraternidade, foi a imagem de Sínodo que inspirou esse livro que evolui agora para uma plataforma digital sinodal.

“Não tenham medo” repetiu o Papa Francisco várias vezes na Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023. O livro “Não temos medo” é a afirmação generosa de 20 personalidades portuguesas, que partilharam em livro as suas reflexões sobre a JMJ e o caminho sinodal. Fizeram-no participando com a Igreja em diálogo com o mundo, numa obra onde são publicadas as opiniões de políticos, jornalistas, sacerdotes, religiosas, profissionais e docentes universitários.

Os artigos são de Bento Amaral, Filipa Lima, Filipe Anacoreta Correia, Helena Ferro de Gouveia, João Paiva, Joaquim Franco, José Luís Borga, José Manuel Pureza, José Maria Brito, Matilde Trocado, Paulo Mendes Pinto, Rita Sacramento Monteiro, Sandra Bartolomeu, Sérgio Leal, Sílvia Monteiro, Sofia Salgado e Sónia Neves.

Especial destaque para o prefácio de Paulo Portas que foi vice-primeiro-ministro, ministro da Defesa e também ministro dos Negócios Estrangeiros. O posfácio é do padre Paulo Terroso, membro da Comissão de Comunicação da Secretaria Geral do Sínodo no Vaticano.

A Rede Sinodal em Portugal está ao serviço da Igreja e aberta à participação de todos os que se sintam entusiasmados com o processo sinodal em curso e dinamizam iniciativas nas dioceses, nas paróquias e nos grupos. Os contributos podem ser enviados para geral@redesinodal.pt.

No Porto alargar reflexão a dois Conselhos Diocesanos

A diocese do Porto abriu a reflexão sobre o Relatório de Síntese do Sínodo dos Bispos ao Conselho Diocesano de Pastoral e ao Conselho Presbiteral Diocesano. Momentos de reflexão que decorreram durante este mês de fevereiro. Estão agora a ser ultimados os textos produzidos por esta reflexão alargada que serão depois amadurecidos pela Comissão Sinodal Diocesana do Porto com vista à formulação do documento para a CEP.

A Comissão Sinodal Diocesana do Porto sublinha a importância da consulta realizada na primeira fase do Sínodo (2021-2022) e que permitiu a elaboração da síntese sinodal diocesana publicada em junho de 2022. Um trabalho que deu expressão à participação e reflexão sinodal de 194 paróquias e de mais de 30 contributos de comunidades de vida consagrada, de movimentos e de outros grupos. Destaque também para a Assembleia Sinodal Diocesana realizada em maio de 2022 e que juntou centenas de diocesanos de todas as idades com representantes das 4 regiões pastorais.

Documento de 2022: aspetos negativos e positivos

Na síntese sinodal diocesana de 2022 foram apresentados aspetos negativos e positivos revelados pelas comunidades durante a consulta. Dos negativos destacam-se os seguintes: uma atitude demasiado hierárquica, clerical, corporativa, pouco transparente e resistente à mudança; uma Igreja que revela pouca abertura para acolher as situações irregulares, que são geradoras de grande sofrimento para alguns grupos de pessoas, em particular, os divorciados, recasados, pessoas em “união de facto” e pessoas com diferentes orientações sexuais; em algumas ocasiões pouca atenção a pessoas com deficiência; uma diminuta atitude de escuta; uma Igreja na qual as mulheres ainda não são consideradas em igualdade com os homens; é crescente a perceção da dificuldade de a Igreja ser verdadeiramente escutada para lá das suas fronteiras, mesmo que os problemas sociais sejam parte integrante da sua mensagem; o clericalismo de padres, diáconos e leigos é um obstáculo à escuta e à mudança; muitos párocos não querem delegar serviços, por medo de perder o poder e o prestígio; a maioria dos sacerdotes está sobrecarregada com o serviço de muitas paróquias, tarefas administrativas e celebração de muitas missas. Não têm tempo para cuidar de si e dos seus paroquianos, para a sua formação contínua e para alimentar a sua própria espiritualidade.

Dos aspetos positivos recolhidos destacamos os seguintes: a Igreja é vista como um espaço de encontro, de experiência pessoal, onde se sonha e partilha e se organiza a vida da comunidade; é lugar de reunião de uma família espiritual, sempre em construção e conversão; é espaço de acolhimento, de crescimento na fé; um lugar onde se presta um serviço aos mais marginalizados, doentes e pobres; é reconhecida a ação social desenvolvida por diferentes estruturas da Igreja; a igreja continua a dar sentido à vida de muitos fiéis, transmitindo valores humanos que são essenciais à vida em comunidade; o importante papel das comunidades de vida religiosa e congregações, que constituem espaços privilegiados de escuta da Palavra de Deus, de vivência da liturgia, de oração, de partilha fraterna, de serviço, de diálogo; o cuidado com o próximo, o acolhimento aos outros, a valorização do conceito de Casa Comum, a riqueza presente na diversidade de modos de expressar a fé, o serviço como estilo de vida e a partilha são marcas referenciais do ser Igreja de Jesus Cristo; importa realçar que um número significativo de pessoas se mostrou bastante agradada com a abertura que a Igreja demonstrou com este Sínodo, com esta consulta ao Povo de Deus, com o “querer escutar”. As pessoas sentiram-se ouvidas pela Igreja o que foi tido como um dos pontos mais positivos deste “caminhar juntos”.

Documento de 2022: áreas, temas e propostas

Também na síntese sinodal diocesana de 2022 são apresentadas várias áreas, temas e propostas a desenvolver, que sublinham a necessidade de uma escuta alargada aos vários setores pastorais.

FORMAÇÃO – Sem hesitação, propõem-se mais momentos de formação e de diálogo, tanto para leigos, sobretudo os que servem nalgum ministério, quanto para clérigos. Formação teológica e, sobretudo, bíblica, referenciando-se especial dificuldade em aceder aos textos do Antigo Testamento. Propõe-se formação para o diálogo com a sociedade e a cultura e formação para o acolhimento. Neste âmbito, recebe especial ênfase o tema da catequese, tanto na formação dos animadores quanto na renovação dos seus métodos e conteúdos. A catequese destaca-se enquanto lugar insubstituível de formação cristã.

Dos muitos âmbitos em que se quer mais formação, ainda que seja muito pouco referido, não se pode deixar de lado o da formação para o namoro, que deveria dar fôlego a questões que acabam tratadas em tempo de recurso, na véspera da celebração do matrimónio, tantas vezes celebrado por quem já vive em comum.

As muitas referências à homilia, não vão no sentido de que acabe, até porque é muito valorizada, a ponto de qualificar a celebração, mas desafiam uma formação específica para que sejam mais cuidadas no conteúdo, na forma e na duração. Propõe-se mais exigência na formação e no discernimento para o ministério presbiteral, querendo que os sacerdotes estejam mais próximos dos leigos e mais disponíveis para os atender e acompanhar, libertando-os de tarefas que podem ser realizadas por diáconos e leigos.

Também se nota a necessidade de formação para a linguagem da liturgia, uma vez que a dificuldade de compreensão tem sempre dois sentidos: o de quem diz e o de quem escuta.

ESCUTA E DIÁLOGO – Os encontros sinodais deixaram a abertura para mais iniciativas que os continuem, numa postura de escuta e diálogo, pedida com insistência. Um diálogo essencial para a formação e a clarificação dos conteúdos da fé e a reflexão sobre a proposta cristã para hoje. Criar uma cultura de partilha e participação ativa de todos, sem excluir qualquer tema, cultivando a prática do discernimento orante, é uma proposta clara para “caminhar juntos”.

ENCONTRO – Propõe-se com insistência que se proporcionem mais momentos de encontro e convívio. Talvez o longo tempo de pandemia tenha revalorizado esta necessidade, quando antes se verificava um certo cansaço nestas iniciativas. Nesta proposta sente-se a necessidade de valorizar a vida em comunidade e de superar conflitos e divisões que causam escândalo, para que o testemunho de comunidades que vivem a fé em comunhão e alegria seja, por si só, testemunho do evangelho.

ACOLHIMENTO – A proposta de cultivar o acolhimento é a mais presente, ainda que deva ser percebida em duas vertentes distintas. Melhorar as competências de acolhimento nas diversas interfaces da comunidade eclesial com as pessoas, sendo uma Igreja de portas abertas e de trato simpático, educado, facilitador, desburocratizado, é a primeira vertente e um caminho irrecusável. Nesta mesma proposta se pode incluir a abertura ao diálogo com a sociedade e a cultura e ao diálogo ecuménico e inter-religioso, ainda que fique pouca clara a dimensão profética deste diálogo.

Uma segunda vertente, muito insistente e pouco consensual, é a proposta do acolhimento entendido como inclusão daquelas pessoas que vivem uma qualquer forma de irregularidade face à moral cristã ou que se sintam, de algum modo, excluídas. Quer-se, sem hesitação, uma Igreja inclusiva, aberta e acolhedora, menos preocupada com as “regras”, sem se precisar como se conjuga acolhimento e proposta cristã.

O desejo de uma “igreja para todos”, leva a muitas propostas decididas neste sentido, que fazem deste um dos temas a merecer maior atenção futura, pois a dificuldade de compreender a proposta cristã é muito generalizada, mesmo entre aqueles que percorreram o normal Trajeto formativo cristão. É hoje, e talvez sempre tenha sido, o lugar onde o diálogo da fé com a vida se faz mais difícil. Por isso, não se pode continuar a passar em silêncio, tanto quanto não se deve fazer dele o principal lugar da fé.

TRATAMENTO DOS ABUSOS – O tema do escândalo pelo modo como foram tratados os casos de abuso sexual no seio da Igreja é muito referido na análise dos pontos negativos, mas não encontra correspondente abundância no âmbito das propostas. Ainda assim, percebe-se uma consciência crescente da importância de mudar estes procedimentos para o futuro da Igreja e, por isso, alguns propõem transparência, celeridade e rigor nesta matéria.

ESPIRITUALIDADE – Um âmbito de proposta abundante e consensual, entendido como valor essencial para o futuro da Igreja, é o que respeita à espiritualidade e à oração, O lugar da vida espiritual e, nesta, da oração, para a conversão de vida e a importância fulcral desta para a evangelização são um caminho irrecusável que deve dar rosto às nossas comunidades. Igrejas abertas para a oração com espaços cuidados e confortáveis, mais tempos de adoração eucarística e, sobretudo, liturgias menos formais, mais próximas, compreensíveis e significativas são feições deste caminho que deve crescer.

A importância da liturgia e, nesta, da celebração da Eucaristia, é fonte de uma exigência imensa para o trabalho pastoral. Cânticos, ritos, sinais, linguagem, homilia, tudo se deseja mais atual e acessível, sobretudo para as crianças e jovens, mas também mais espiritual.

Uma proposta que merece reflexão é a que sugere novos modos e tempos para a celebração do sacramento da Reconciliação, acrescida do pedido de que se criem condições de maior disponibilidade dos ministros para a mesma.

LINGUAGEM – Propõe-se o cuidado de adaptar a linguagem conforme o público, simplificando os termos mais técnicos ou teológicos, sempre que possível. Usar a linguagem para aproximar e não para afastar, para promover o diálogo e a disseminação das mensagens importantes e não para exibir eloquência e erudição.

Já referimos a necessidade de formação para a homilia e de formação para a linguagem da liturgia, mas esta questão da linguagem nas celebrações, tantas vezes entendidas como repetição monótona dos mesmos ritos de significado obscuro, percebe-se como essencial à vida cristã. Fazer a mensagem compreensível aos cristãos é um propósito conciliar que está longe se ser cumprido. Em muitos reparos escutamos as mesmas observações que antes se faziam à liturgia pré-conciliar, o que denota como continua a ser essencial aproximar a liturgia dos crentes e os crentes da liturgia. De facto, este caminho, como já foi dito, tem sempre dois sentidos e nenhum deles pode ser sobrevalorizado ou esquecido.

COMUNICAÇÃO – Dos contributos e respostas recebidas assinala-se com particular destaque a necessidade de comunicação na Igreja. Desde o acolhimento nas celebrações até ao modo de evangelizar, foram muito os contributos recebidos visando uma atualização da presença da Igreja na sociedade.

A importância da comunicação digital e das redes sociais foi valorizada pela larga maioria dos contributos sinodais. É assumida a necessidade de dar maior protagonismo aos leigos neste tema, aliada a uma estratégia que tenha em atenção uma linguagem simples, transparente, clara e objetiva.

MINISTÉRIO ORDENADO – São muitas as propostas no sentido de tornar opcional o celibato sacerdotal. Além do atrativo pela ideia de escolha, parece a alguns que poderia obviar ao problema dos abusos sexuais e há uma expectativa generalizada de que aumentasse o número de ministros. Neste sentido, também abundam propostas para a ordenação de homens casados e de mulheres. Aparece como positiva a experiência dos diáconos permanentes e também se propõe este ministério para as mulheres.

Uma proposta clara que emerge desta consulta afirma a importância de a Igreja valorizar e reconhecer o papel das mulheres. Para tal, propõe-se uma reforma profunda no sentido de acabar com a exclusividade de homens a presidir às assembleias, valorizando o papel da mulher num plano de igualdade, equiparado ao vivenciado nas Igrejas cristãs de cariz protestante. Nas respostas de grupo, percebe-se a falta de consenso nestas matérias.

Vale a pena repetir a proposta de melhorar a formação para os ministérios ordenados, valorizando, além das dimensões mais óbvias, as competências para o acolhimento, a escuta e o diálogo, a partilha de decisões e o trabalho em conjunto.

LEIGOS E LEIGAS – Os leigos devem assumir um papel mais ativo na evangelização, para o que se propõe que tenham mais voz nas instâncias de decisão e de tomada de posição, sem ceder ao excessivo protagonismo e autoritarismo, de feição clerical, de alguns. A dimensão hierárquica deve possibilitar uma maior participação laical, mesmo no que concerne ao discernimento sobre a escolha dos bispos e a transferência dos párocos, que deve criar maior rotatividade. O lugar dos conselhos não deve ser menorizado, tornando-os determinantes nas decisões tomadas em qualquer nível e procurando que representem mais que o núcleo de pessoas envolvidas nas estruturas eclesiais.

Cabe aqui uma referência fundamental ao papel das comunidades de vida religiosa e à sua importância para a comunhão eclesial, onde surgem como sinais insubstituíveis da vida na fé, marcada pela espiritualidade e pelo serviço.

Do conjunto de respostas recebidas, muitos entendem como constitutivo da mundividência do mundo atual o papel da mulher na Igreja. É fundamental e irreversível que mulheres e homens tenham os mesmos direitos e deveres, sendo este um conceito básico para construir uma sociedade com níveis cada vez menores de discriminação e preconceito.

Espera-se maior partilha de responsabilidades e maior corresponsabilidade em tudo, superando o clericalismo e manifestando verdadeira comunhão entre todos. Esta comunhão e partilha deve ser clara entre comunidades, sobretudo no uso de critérios e regras comuns para a pastoral e os sacramentos.

JOVENS – São escassas as propostas avançadas no sentido de melhorar a relação, o entendimento e a participação dos jovens na Igreja. Além da adequação dos momentos litúrgicos, a repetir muitas das propostas do imediato pós-concilio, propõe-se um especial cuidado no acompanhamento que deve ser dado a projetos centrados nos jovens, após terem completado o percurso catequético, com a receção do sacramento do Crisma.

Propõe-se a criação de grupos e atividades que escutem e acompanhem os jovens, em particular no seu processo de discernimento vocacional, promovam o voluntariado e o sentido de pertença à Igreja, dando-lhes maior presença e protagonismo e colocando os seus talentos individuais e de grupo ao serviço da comunidade. Propõe-se, ainda, que os jovens tenham mais voz nas instâncias eclesiais de decisão.

FAMÍLIA – Surge com força a necessidade de dar protagonismo maior às famílias fomentando o desenvolvimento da consciência de “Igreja doméstica”. É considerado que a participação das famílias deve ser acolhida, em particular, a partir da catequese, envolvendo-a a colaborar na vida comunitária em modo integrado com os outros grupos e estruturas.

Como já foi referido, é feito um apelo especial de abertura e acolhimento para com as novas realidades familiares, para com os divorciados recasados, os homossexuais e as pessoas em “união de facto”.

COMUNIDADES – Um último grupo de propostas, respeita à feição das comunidades eclesiais, dioceses, paróquias, comunidades religiosas e movimentos e obras, que se querem mais simples e acessíveis, mais próximas de todos. Para o maior bem de todos devem dar especial atenção ao diálogo e colaboração com as instituições civis.

A superação do clericalismo, deve dar-lhes maior transparência, sobretudo económica, e torná-las lugares de corresponsabilidade e cooperação, evitando a competição e a concorrência.

As dioceses portuguesas estão em plena fase de reflexão para a segunda sessão do Sínodo que terá lugar em Roma de 2 a 27 de outubro.