O Cinema visto pela Teologia (101): “Há lodo no cais”

Uma leitura do filme “Há Lodo no Cais

Por Alexandre Freire Duarte

Apesar de Marlon Brando ser um dos maiores atores do séc. XX, creio ter uma certa alergia por ele. Mas isto não me impede de reconhecer que “Há Lodo no Cais é o melhor filme da década de cinquenta do séc. XX. Ele é um excelente e meditativo drama desolador no cruzamento, brutal e realista, entre os géneros de filmes de gângsteres e de política. E isto apesar de ter um final demasiado polido para ser convincente, quer como análise cuidadosa de uma personagem sob tensão, quer como retrato ficcional (embora baseado em eventos reais) do sórdido, brutal, indigno e violento mundo do trabalho.

Brando é realista, incandescente, sinuoso e no retrato multifacetado de um pouco eloquente “durão” sentimental cheio de “demónios” internos. Saint é a delicada e angelical, mas nada letárgica, figura que envolve aqueloutro como uma “luva”. Mas, para mim, Malden é a estrela inspiradora do filme na sua revolta sacerdotal de amor incarnacional. Dito isto, todas as personagens são “cinco estrelas”. Tal como o são os planos fechados e parciais; o som ambiente e a música discreta de Leonard Bernstein que acompanham, com mestria, os cenários caliginosos, vertiginosos e húmidos desta obra.

Não é preciso grande esforço para se ver analogias (e até igualdades) entre a trama deste filme e situações laborais comuns: pressões psicológicas; ameaças veladas e/ou às claras; ostracizações ostensivas; exaltações dos cais e dos becos imundos (dos sabujos) da inaptidão; acusações feitas com o intento de desviar as culpas próprias para os outros; apatias ante a cegueira infligida a estes últimos; silêncios medrosos ante os superiores; etc. O mundo às vezes é duro. E é-o mesmo onde o refulgir do amor mais devia brilhar.

Face a isto, quantos sacerdotes, consagrados ou leigos teriam a coragem para, nos dias de hoje, fazerem o que realizou (o padre jesuíta que inspirou) a figura de Malden e, tal como os profetas de sempre, apontarem aos maiores “rufias” que ainda se vendem pessoas por um pedaço de notoriedade? Mais: quantos batizados seriam capazes de dizer “se pensais que Jesus não está nestes a quem estais a ‘destruir’ e a ‘matar’, estais num mundo que não existe; num mundo inexistente; num mundo sem consistência”?

Andamos, amiúde, com a consciência pouco desperta (pois amolecida pelo mundano) para vermos a nossa responsabilidade em tudo o que nos envolve. E envolve, enquanto (e como é óbvio do “Pai-Nosso”) discípulos chamados pelo Senhor para vivermos numa comunidade a orbitá-Lo na ajuda protetora dos demais – em especial os que mais sofrem com a tirania e a soberba. Deus conta connosco para salgarmos a Terra.

Para quem tanto sofre e se deixa consumir pelo ódio por aqueles que o vão despedaçando, pode ser difícil ir à Eucaristia – esse sacramento da comunhão com o Jesus falante, silencioso e “escondido” nos demais –, mas não a abandonemos, enquanto sacramento temporal do sonho magnânimo do Amor eterno. E se desejarmos o mal àqueloutros que nos crucificam, nunca deixemos, por favor, de pedir a Deus que Ele os replete de bem. Se não tivermos luz e amor para eles, peçamos que Deus lhos dê. Quiçá isto fará com que nem logremos orar por nós. Não faz mal. Estaremos no bom Caminho.

Impressão e expressão; mãos e olhos de amor compassivo incarnado, mesmo que mediado por Deus. Sempre. Morramos diariamente para sermos o fruto que nutre os demais na rutura do “ego”, sabendo que isso levará, por linhas tortuosas, ao Deus-Amor.

(EUA; 1954; dirigido por Elia Kazan; com Marlon Brando, Karl Malden, Lee J. Cobb, Rod Steiger e Eva Marie Saint)