Da Transfiguração ao sacrifício de Abraão: novas dinâmicas civilizacionais

Por M. Correia Fernandes

A lembrança do passado domingo, associando dois acontecimentos bíblicos relevantes (a transfiguração e o sacrifício de Abraão), no contexto entre nós do início de uma campanha eleitoral, com a sua profusão de conflitos e propostas, pode conduzir-nos a dois níveis de reflexão:  o da busca de sentido da política e o de busca de linhas de rumo para a condição humana.

A transfiguração nas relações e projetos políticos deveriam conduzir a sociedade e os que nela atuam a um aprofundamento do valor do relacionamento humano. Os tempos de campanha tornam-se em tempos de conflito e de agressão, ao menos verbal. Os sentidos da proclamação de propostas de orientação e construção social (projetos políticos, planos de governação, ideais a promover) necessitam de uma necessária transfiguração, em que o confronto se possa transformar em espírito de colaboração e de entreajuda, superando as dicotomias tradicionais como capital/trabalho, controlo/iniciativa, autoridade /liberdade, individual/coletivo e tantas outras.  A transfiguração exigida deveria ser a transfiguração das inteligências, dos corações e das dinâmicas sociais. E também a transfiguração das palavras, que de agressivas passassem a palavras de coragem e de essencial sentido humano. Havíamos de encontrar as palavras fundadoras de humanismo, palavras criadoras de ideais, palavras edificadoras de relacionamento humano fraterno. Elas existem nos dicionários mas são facilmente esquecidas nos discursos.

Por outro lado importa lembrar o sentido do sacrifício ad Abrão, que iria imolar o filho Isaac por ser o seu legítimo primogénito, mesmo tendo em conta que tivera um filho da escrava Agar. A narrativa bíblica do Génesis (capítulo 22) acentua a obediência à vontade de Deus e a generosidade do patriarca, ao não regatear a oferta do seu próprio filho, como submissão à vontade de Deus.  Esta é uma visão piedosa e certamente de valor espiritual, aliás realçado pela própria linguagem litúrgica.

Porém, há  um conjunto de gestos significativos: a decisão de oferecer o holocausto; a mensagem não faças mal ao menino; a substituição pelo sacrifício do cordeiro, o louvor bíblico do temor de Deus.

O sentido profundo e simbólico, porém, sem deixar de ser o do louvor e do temor de Deus, isto é, de todo o reconhecimento da dependência e submissão do Homem em relação a Deus, possui um profundo sentido antropológico, que traduz uma mudança civilizacional, e uma dimensão antropológica da vida humana que a habitual visão apenas pietista acaba por desvalorizar.

O que lembraria a Abraão o gesto de imolar o menino? Abraão vinha de Ur, na Caldeia, de uma civilização assíria de forte mitologia em que os deuses eram poderosos e vingativos, incluindo também os sacrifícios humanos. É essa inquietação que está na mente caldaica de Abraão. Ele vinha na esteira visionária de um chamamento que o orientava para o Deus único, Senhor universal, princípio de todo o equilíbrio humano. Essa é a raiz de uma nova posteridade humana, que se multiplicará como as estrelas do céu e constituirá a bênção para todas as nações da terra (Gén. 22,18). Abraão vem na descoberta do Deus único, Senhor do Céu e da terra, próximo das criaturas, uma transformação da civilização humana, a raiz de toda a salvação que vem de Deus.

Esta passagem constitui assim a nova dimensão antropológica de todo o sentido salvífico da condição humana. É um novo projeto do paraíso inicial.

A própria carta aos Hebreus o afirma: “Pela fé Abraão, sendo chamado, obedeceu, indo para um lugar que havia de receber por herança; e saiu, sem saber para onde ia. Pela fé habitou na terra da promessa, como em terra alheia, morando em cabanas com Isaac e Jacob, herdeiros com ele da mesma promessa. Porque esperava a cidade que tem fundamentos, da qual o artífice e construtor é Deus. (Heb, 11, 8-10).  É pois toda a inspiração da Fé que constitui o fundamento desta passagem bíblica: a afirmação da dignidade e da grandeza da vida humana, para além de todos os rituais.

Muitos são ainda os deuses nas sociedades atuais, e parece que cada vez mais se manifestam: as armas sofisticadas, os poderes mediáticos, o controlo dos espaços informativos e a inteligência artificial. A linguagem corrente da repartição das armas , em vez da repartição de alimentos constitui um dos maiores dramas dos nossos dias.

Mas o apelo continua a ser o respeito pela vida humana, em causa nas legislações sobre aborto e eutanásia, e pela vida de toda a natureza. Mesmo o sacrifício animal, que constituiu um passo, deve captar também o novo passo do respeito pela natureza, que não sendo direito dos animais, deve ser objeto do dever humano para sua preservação e equilíbrio.

Importa, pois, reavivar o sentido antropológico do sacrifício de Abraão, que mantém toda a atualidade e se amplia em novas dimensões.