Valorizar os Passos de Cristo

Por Jorge Teixeira da Cunha

Há manifestações de piedade popular de grande significado espiritual, teológico e pastoral. Entre essas, encontra-se a tradição dos Santos Passos. Em diversas paróquias da nossa diocese (e do nosso país), há manifestações dessas. Algumas ainda são celebradas nos domingos da Quaresma, com grande adesão popular e riqueza cultural. Outras estão em recomeço. Outras estão um pouco esquecidas e os párocos tem dificuldade em manter as capelas que assinalam esse itinerário pascal que manifesta um esplendor que está adormecido. Mas está fora de dúvida que a piedade popular é um ponto de partida sempre disponível para recriar e afervorar.

A celebração dos Passos leva-nos ao centro do mistério pascal de Cristo. O que é o mistério pascal de Cristo? Em primeiro lugar é a vigência pessoal de Jesus que enfrentou a volubilidade do povo, a oposição das autoridades religiosas e políticas, que foi detido pela força, que padeceu um julgamento iníquo que resultou na sua condenação à morte, que foi torturado, que morreu crucificado. Em segundo lugar, a teologia diz-nos que tudo isso aconteceu para nos livrar dos nossos pecados. Mais recentemente, temos advertido que o mistério pascal de Jesus inclui uma parte invisível que é a sua ressurreição, a sua aparição e parusia, e a sua ascensão. O mistério pascal de Jesus é a sua incarnação levada à plenitude: a sua humanidade plenificada e a sua filiação divina afirmada.

Aqui há muita matéria para ampliar o sentido da celebração dos Santos Passos. Desde logo, a insistência no protagonismo de Jesus. É vida dele e a morte dele que estão em causa. Os Evangelhos insistem nesse protagonismo: não é um desígnio exterior que leva Jesus à morte. Ele enfrenta a morte de forma advertida, sabendo progressivamente o que estava em causa, tendo em conta a sua qualidade filial incomunicável e incomparável.

Mas podemos perguntar: como é que a morte de Jesus é a superação do pecado? Aqui é necessário dizer com muita convicção que não se pode responder a esta pergunta usando o antigo mecanismo sacrificial. Por esta via dizia-se: Cristo satisfez a Deus uma dívida em vez dos pecadores culpados. Este caminho é absolutamente de excluir, por muito peso que tenha na tradição. Jesus livra-nos dos nossos pecados porque viveu, antes de nós e por nós, uma vida humana íntegra, resistindo à tentação onde nós caímos todos, desde os nossos primeiros pais até à atualidade. Os Passos do Senhor são a nossa recordação dessa existência perfeita que enfrenta vitoriosamente o mal, padece o sofrimento injusto que resulta dele, mais o sofrimento interior de consumar filialmente a sua humanidade.

Mas falta ainda explicar o modo como os Passos de Cristo nos livram a nós do pecado e nos redime do mal. Aqui só podemos responder dizendo que temos de fazer o mesmo caminho que Ele fez. A vida plena de Jesus nos é-nos oferecida pela nossa comunhão nessa vida plena que ele reparte connosco. A ressurreição do Senhor é a vida plena eternamente disponível para que vivamos Nele, Por Ele e para Ele. Livrar-se dos pecados é um exercício de libertação que repete os passos de Cristo. Na sua criação e redenção, todos os seres humanos vivem e morrem da vida e da morte de Jesus. Aqui entra a ética cristã, a sacramentalidade e a espiritualidade. A vida gloriosa do Senhor instaura um espaço de afecto ao qual todos os seres humanos são admitidos. Importa que essa vivência seja advertida no batismo e aprofundada numa existência temporal de comunhão progressiva e de esforço moral.

A celebração litúrgica, a vida de oração, a vida de caridade, o crescimento ético, são o modo de assimilação progressiva da criação e da redenção em Cristo. Aqui se mostra todo o sentido da celebração dos Passos: uma manifestação afecto que recorda, que assimila, que recria em favor do hoje da vida das pessoas, a eterna actualidade da presença gloriosa do Senhor, uma dor criativa que protesta contra o mal individual e colectivo de hoje e entra na alegria. Se esse exercício de piedade puder ser guarnecido pela produção de bons textos, de boas expressões musicais, de boas e criativas encenações dramáticas, então é que a piedade popular se torna eficaz na assimilação da vida divina.