Fundação AIS: Dias de medo no orfanato (c/vídeo)

Ajudar a Igreja na Ucrânia, um compromisso para esta Quaresma

A Irmã Karmela continua a ter uma voz calma, um olhar sereno e um sorriso bondoso. Mas naqueles dias, em Abril, quando a guerra chegou a Vorzel, foi impossível esconder o medo. No lar onde vive e que acolhe crianças órfãs, quando escutaram as primeiras explosões, foi o pânico. Todos fugiram para a cave, como se fosse um abrigo. E rezaram. Pouco mais podiam fazer…

Por ali, ninguém tinha alguma vez na vida ouvido o som assustador das bombas. O silvo que elas fazem ao cair, o estrondo da explosão. Mete medo. As crianças do orfanato de Vorzel, uma cidade a cerca de 30 km de Kyiv, a capital ucraniana, estavam aterrorizadas. Toda a gente estava aterrorizada. A princípio, ninguém acreditava que a Rússia fosse mesmo concretizar a ameaça da invasão da Ucrânia. Parecia inverosímil que isso acontecesse em plena Europa, em pleno séc. XXI. Por aqueles dias, em Fevereiro de 2022, pouco antes de se escutarem os primeiros tiros, era indisfarçável a inquietação nas pessoas. Mesmo que não se falasse disso, não se pensava noutra coisa. “Alguns dias antes da guerra começar, ao regressar da escola, as crianças perguntaram-me: ‘É verdade que a Rússia nos quer atacar?’ Eu disse-lhes que não era possível, porque não tinham motivos para nos matar. Afinal de contas, não fizemos nada de mal…” A Irmã Karmela deve ter feito um grande esforço por manter a calma, por manter a serenidade enquanto respondia às suas crianças. Ela sabia, na verdade, que a guerra poderia ser quase uma inevitabilidade dada a quantidade de tropas que já se acotovelavam junto às fronteiras. E, na verdade, o que todos temiam aconteceu mesmo. Foi no dia 24 de Fevereiro de 2022. Uma data que a História não esquecerá. A invasão da Ucrânia começou e os soldados russos chegaram mesmo a Vorzel.

Nem a imagem de Nossa Senhora de Fátima foi poupada

Vorzel é uma cidade pequena, rural, situada nas imediações de Kyiv. Por lá, além do orfanato das Irmãzinhas do Imaculado Coração de Maria, existe também um seminário. É verdade que os militares russos não estiveram muito tempo na região de Vorzel, mas deixaram um rasto de destruição que ainda hoje é recordado com amargura. Muitas casas foram assaltadas. O orfanato não escapou aos soldados, mas foi no seminário, por ser um edifício maior, que houve mais destruição. Por ali, nem a imagem de Nossa Senhora de Fátima, tão querida dos jovens estudantes, foi poupada. E o que havia para roubar foi levado. Desde os aparelhos de ar condicionado, às máquinas de lavar roupa, até os ténis do reitor. Tudo foi saqueado como se de um troféu de guerra se tratasse. Até objectos sagrados como o cálice da Santa Missa celebrada em Vorzel por São João Paulo II em 2011… Nada escapou.

Quando se escutaram as primeiras explosões, sinal de que as tropas russas estavam já nas imediações de Kyiv, a capital ucraniana, as irmãs pegaram nas suas crianças e levaram-nas para a cave. Era o melhor que podiam fazer para as abrigar. Era o único sítio onde podiam esconder-se das bombas. Nesse momento, a sensação de impotência deve ter sido enorme. A Irmã Karmela conta à Fundação AIS como tudo aconteceu. “Foram momentos aterradores. Fomos para a cave, mas não sabíamos mesmo o que fazer, por isso, sentámo-nos lá com as crianças e rezámos.” Mas não podiam ficar ali por muito mais tempo. Era mesmo preciso deixar a casa e partir. Os bombardeamentos estavam a intensificar-se e ninguém conseguia estar seguro em lugar algum. “O Pe. Ruslan telefonou-nos e disse que tínhamos uma hora para pegar nas coisas mais importantes e que nos viria buscar…” O Pe. Ruslan Mykhalkiv é o reitor do seminário católico de Vorzel, situado ali perto, e que foi atacado e saqueado por soldados russos. Foi a 12 de Abril de 2022. Era preciso sair dali e depressa. O reitor levou consigo os seminaristas, passou pelo orfanato e levou também as religiosas e as cinco crianças que lá estavam.

“Obrigado, Fundação AIS…”

No entanto, a presença dos soldados russos foi curta na região. Mas brutal. A cidade de Bucha, situada também na zona de Kyiv, foi palco de um verdadeiro massacre, calculando-se que mais de três centenas de pessoas tenham sido torturadas, mutiladas e mortas. As atrocidades foram de tal ordem que o próprio Tribunal Penal Internacional iniciou uma investigação para se apurar a dimensão dos crimes de guerra que eventualmente terão sido cometidos. A presença dos soldados russos na região durou apenas algumas semanas. Saíram os soldados, regressaram as pessoas. A Irmã Karmela e os seus rapazes e raparigas puderam voltar a casa. Que também tinha sido assaltada. Desde então, muita coisa mudou em Vorzel, no lar que as irmãs abriram para acolher crianças órfãs. Mudou essencialmente a forma de ver a vida, de olhar o tempo, de perceber a importância relativa das coisas. Na casa grande de Vorzel as crianças estão no centro de tudo. É para elas, é por elas que as irmãs se lançaram nesta aventura de amor. Estas crianças e jovens não eram saudáveis, tinham vários problemas, psicológicos, mentais. “A nossa casa é, acima de tudo, a família. Podemos sempre voltar lá. É onde a nossa família está à espera, onde somos amados e aceites. Durante este tempo, aprendemos a não planear nada. Fizemos planos de curto prazo, e quando resultou, agradecemos a Deus”, conta-nos a irmã. A casa de Vorzel é uma vivenda situada numa zona de campo, calma, rodeada de árvores. Esta casa transformou-se no lar de verdade para estes jovens e crianças, rapazes e raparigas adoptados pelas irmãs. O orfanato de Vorzel das Irmãzinhas do Imaculado Coração de Maria é apoiado pela Fundação AIS. Uma ajuda que a Irmã Karmela não se cansa de agradecer. Até porque a casa foi assaltada durante os tempos de ocupação das tropas russas e foi preciso voltar a torná-la habitável. “Quero agradecer-vos”, diz a irmã à Fundação AIS, “por nos terem ajudado a comprar os bens mais essenciais para a nossa casa. Tivemos de pedir a vossa ajuda, principalmente depois de termos regressado, porque a casa foi assaltada…. Pedimos e, com gratidão, recebemos a vossa ajuda. De coração sincero, muito obrigada!”

Paulo Aido