Da história da música para a liturgia: Domingo II da Quaresma

Foto: João Lopes Cardoso

Por Bruno Ferreira*

Rheinberger: Meditabor in mandatis tuis, Op.133, nº 2

 

Latim:

 

Meditabor in mandatis tuis,

quae dilexi valde:

et levabo manus meas

ad mandata tua, quae dilexi

.

 

[Salmo 119 (118), 47-48a (Vulgata)]

 

 

Tradução portuguesa:

 

Meditarei nos teus mandamentos

que muito amei. 

Levantarei as minhas mãos

para os teus preceitos que amei.

No segundo domingo da Quaresma, a beleza da Transfiguração (Mt 17,1-9) anima os discípulos a caminho da escandalosa Paixão de Cristo. O texto do Ofertório para o Domingo II da Quaresma é tirado de um fragmento do Salmo 118 na versão da Vulgata; neste caso, o aspeto penitencial da Quaresma parece passar para segundo plano em relação à contemplação, na qual o crente se propõe meditar os mandamentos de Deus e se alegra com a sua beleza.

Estes sentimentos são magistralmente expressos por Joseph Rheinberger (1839-1901), um organista e compositor originário do Liechtenstein, mas que viveu predominantemente na Alemanha, cuja produção inclui uma vasta gama de peças religiosas – entre as quais muitas composições valiosas para órgão. O seu Meditabor (), composto em 1881, para 6 vozes (SSATTB), a cappella, que faz parte de uma série de quatro motetes a seis vozes, se próprio numa atmosfera de íntimo recolhimento, com o coro que canta em pianissimo e sobre acordes eufónicos cantados pelo coro em homofonia.

Dinâmica e extensão abrem-se à palavra “valde“, enquanto os compassos seguintes são musicados com uma técnica que recorda aquela antiga dos “cori spezzati” (coros quebrados) (vozes femininas primeiro, neste caso, seguidas das vozes masculinas). A repetição do texto já cantado permite a Rheinberger enfatizar outros significados das palavras propostas, enquanto a imagem do “levantar das mãos” diante dos mandamentos divinos é pintada com discrição, usando uma pontuação de notas repetidas.

Introduzida pelo contralto, nas palavras “ad mandata tua“, a tonalidade muda de Ré Menor para Ré Maior; esta transição é consentida pela indicação de “piano dolce” com que o compositor assinala a passagem, e que marca uma clara mudança de atmosfera.

Se ainda haverá momentos de tensão, cromatismos complexos e árduos, e a construção de um grande clímax conclusivo (que depois dá lugar à ternura da conclusão, mais uma vez recolhida e composta), a alegria que advém da contemplação dos mandamentos de Deus será o traço distintivo desta segunda parte da composição. Saboreemos esta bela composição!

* Aluno de Composição no Pontifício Instituto de Musica Sacra (PIMS), em Roma