O Cinema visto pela Teologia (100): “Bob Marley: One love”

Uma leitura do filme “Bob Marley: One Love​​

Por Alexandre Freire Duarte

Eis um filme diminuto que desaponta, por ter sido incapaz de compaginar a explosão ascética que foi Bob Marley com a imagem reverente, anestesiada e “canonizada” que dele apresenta. Afora alguns momentos nada devotos, a trama é um caos anedótico que, privilegiando porções de músicas e situações incongruentes do homem retratado, foge às questões catárticas que deveriam ter sido tratadas. Assim, a banalidade ruminante é inevitável e os clichés despontam por todo o lado, impedindo, neste processo, uma aproximação com aquele que se deseja apresentar como um ícone.

As atuações dos atores são, em geral, monofocais, com a exceção de Lynch, fugaz mas “incendiária” na sua compaixão e perceção da figura com quem “está casada”. Ben-Adir é aplicado e tenta mostrar um Bob Marley credível e crível, mas está muito cerrado para que o seu visível encanto possa fazer-nos vibrar. Mais: nada me convencerá que o playback não foi (ab)usado em grande parte das suas interpretações musicais (ainda mais rebaixadas pelo utilizar de muitos e desnecessários floridos musicais nesta obra maçuda).

Creio que poucas são as pessoas que, por mais que a repitam sem cessar, saibam o contexto em que é dita a famosa frase “a beleza salvará o mundo”. Em suma: ignoram que beleza o poderá salvar. Também este filme, fiel nesse aspeto a quem quis retratar, vai naqueloutra linha, defendendo que a música é a realidade que pode unir e pacificar a humanidade. E tem razão, mas só se essa música for a do kenótico amor criador divino que na Cruz de Morte e Ressurreição possui a sua nota tónica retrospetiva e prospetiva.

Como teólogo, não me custa a ver neste filme uma biografia, cronologicamente focada, de uma espécie de profeta ciente de que, para que tal música alcançasse o seu fito, ele teria que padecer por amor ao seu povo. Um profeta feito da mesma massa do que todos nós: traumatizado, infiel, exagerado, carente e em busca – através do pouco mais do que colorido e racista movimento rastafári – de um Absoluto Transcendente que, na verdade, viveu humanamente entre nós, não como Haile Selassie I, mas como Jesus.

Cristo, por seu lado, não simplificou uma utopia dramática em slogans de “paz e amor”, vividos no meio de nuvens psicoativas que permitiam viver artificialmente as realidades ditas por essas “palavras de ordem”. Também não Se desconectou de tudo o que era material para vender a Sua imagem. Pelo oposto. Ele viveu tudo como nós, e sem nenhuma artificialidade, mostrando-nos que o desamor, passível de ser vivido de formas variadas oriundas do “ego”, não é próprio do humano, sendo, sim, o que nos desumaniza.

Enquanto cristãos, cremos que a Incarnação que permitiu tal vida do Senhor (que não é senão um outro modo da perene presença do Deus-Amor à Sua Criação) é absoluta, autêntica e concludente e que, em consequência, a natureza humana foi transformada, transfigurada e plenificada na sobredita Ressurreição. Assim, a Luz divina cintila em nós desde tal momento, e connosco se relaciona segundo as “leis” da convergência (união) e da divergência (distinção), para que a do amor (extensão) em tudo possa reger. Neste cenário, o triunfalismo, otimismo e coletivismo (cantados e homiliados por Bob Marley) ganham a sua única densidade genuína na humildade, realismo e comunhão eclesiais.

(EUA; 2024; dirigido por Reinaldo Marcus Green; com Kingsley Ben-Adir, Lashana Lynch, James Norton, Tosin Cole e Anthony Welsh)