As metamorfoses edificantes da Quaresma

Por M. Correia Fernandes

Em tradicional dia de namorados inicia-se este ano o tempo da Quaresma. Esta coincidência resulta do facto de a celebração da Páscoa ocorrer este ano no domingo 31 de março. Com efeito, a norma de definição da celebração da Páscoa cristã remonta do Concílio de Niceia (ano de 325), que definiu como critério da sua fixação, enquanto festa móvel, o domingo seguinte à lua cheia após o equinócio da primavera (em 2004 o equinócio ocorre em 20 de março). A lua cheia de março ocorre em 25 de março de 2004, sendo o primeiro domingo seguinte o dia 31 de março.

Esta tradição mantém-se em toda a Europa ocidental e nas Américas.  Existe a sensação de que seria mais vantajoso que se pudesse chegar a um consenso internacional para a marcação de umam uma data mais fixa (por exemplo, o primeiro ou o segundo  domingo de abril), o que facilitaria as questões modernas de horários internacionais. Mas a tradição ainda é o que era e pelos vistos continua a ser.

Porém, estes aspectos formais não devem fazer esquecer o seu sentido pascal profundo: celebração do dia da Ressureição de Jesus Cristo, ocorrido no quadro da Páscoa judaica. É este dado essencial que dá sentido à celebração da Quaresma, lembrando os quarenta dias da presença de Jesus no deserto, e tendo-se depois elaborado o esquema dos domingos preparatórios, que se iniciam este ano em 18 de fevereiro até 24 de março, domingos de Ramos e da Paixão do Senhor, que inicia a Semana Santa, em que ressalta o Tríduo pascal, que antecede a celebração da Páscoa.

Assim as metamorfoses da Quaresma tornam-se as múltiplas formas que na expressão do tempo de conversão e penitência a Igreja propõe para estes dias. Muitas poderão ser as dinâmicas a renovar em cada ano neste percurso. Vários conceitos cristãos podem ser valorizados neste tempo e adaptados à vida social e política.

Seja o primeiro o conceito da esperança, que devemos entender não como coisas genérica, idealista, abstrata, mas como realidade a que se dá um sentido concreto e vivencial, nas palavras, nas atitudes e nas tarefas do quotidiano. Capaz dos gestos de proximidade e de convivência, a simpatia do trato e do diálogo, a capacidade de desculpar (em linguagem cristã, de perdoar), uma prática da convivência pacífica, superadora das violências e da busca desenfreado dos interesses pessoais. Esta deveria tornar-se uma dinâmica social, uma espécie de inverso do que nos trazem as notícias de hoje, investigações, incriminações, acusações, vinganças. Deveríamos introduzir a linguagem do entendimento, da compreensão, do espírito fraterno. Há modelos bíblicos da esperança, como assinala Tolentino de Mendonça, propondo uma nova escala de valorização humana, em que se toma a esperança como a “arte de acolher pacientemente a vida”, o sentido do trabalho, a descoberta dos valores perene e das suas novas expressões e novos sentidos, um trabalho de reconciliação (Tolentino, Metamorfose necessária). É nesta dinâmica que adquirem sentido os conceitos de conversão e de penitência, ideais de transformação e de reedificação dos pensamentos e das atitudes.

Em tempos de debates e de linguagem política exacerbada, pode este tornar-se um apelo para debates e comícios: a linguagem do um espírito convivencial, interativo, dialogante.

Outra linha de conversão quaresmal pode ser a da vivência comunitária da fé. Muitas vezes assumimos uma dimensão pessoal e individualista da fé, afirmamos ter a nossa fé. Uma linha nova de convicção assume esta dimensão comunitária e fraterna da fé, que nos deveria pôr em relação com os outros, num universo de linhas de diálogo e de proximidade. Em tempo de debates eleitorais, esta dimensão tornar-se-ia construtora de novas dinâmicas sociais.

Esta dimensão comunitária e fraterna da fé poderia tornar-se fonte de novos dinamismos políticos e sociais, seguindo o conselho paulino que lembra que é nas tarefas da vida (pessoais e comunitárias) que se encontra o sentido pleno da mensagem cristã: “Fazei tudo em nome do Senhor Jesus”. Eis a grande metamorfose da Quaresma.