O Cinema visto pela Teologia (99): “Anatomia de uma queda”

Uma leitura do filme “Anatomia de uma Queda

Por Alexandre Freire Duarte

Esta obra é um despretensioso, soberbo, tenso, intenso, poderoso, escorregadio e calibrado “drama de tribunal” que, não abandonando totalmente o género de thriller, adere ao relativismo (totalitário) pós-moderno de ausência de “uma verdade”, antes a uma “pluralidade de verdades”. Face a isto, e à riqueza da sua apresentação e temáticas, a sua ambiguidade (emocional) cheia de pequenos puzzles pôr-nos-á a pensar, seja durante a sua visionação, seja muito tempo depois de havermos saído da sala de cinema.

Hüller (que não conhecia) é boníssima e calejada em tudo o que faz: do mostrar-se abatida e alerta ao modo como o manifesta facial e verbalmente, passando pelo (des)velar com um véu o que deseja (des)cobrir. Milo é interessante no papel do adolescente atormentado em busca de um sentido que esta nossa mundanidade tem feito cada vez mais vago. A isto soma-se o estudo das personagens, a música só narrativa, a fotografia limpa e a mestria das câmaras que, conjuntamente, ampliam as ditas reflexões.

“Anatomia de uma Queda disfarça muito bem o que está na raiz de tudo o que vemos: não uma ocasião excecional, mas a triste e crescente normalidade de matrimónios a desfazerem-se no meio de uma vida que é dura e até cruel. Como defesa de nós mesmos ante isto, erigimos máscaras sobre quem somos (o alcoólico que nunca tocou em álcool; o prepotente que é sempre bondoso; etc.) e projetamos as nossas inconsistências em quem nos desmascara – nem que seja por viver genuinamente o que nós fingimos ser.

Como cristão e Teólogo, é doloroso ver as tentações sibilinas dessa difusa e gasosa mundanidade e mais doloroso ainda aceitar as consequências, por vezes aflitivas, do se querer resistir às ditas tentações. Não são poucos os cristãos que eu conheço que, face a isto e às mentiras que os orbitam, entram em espirais de depressão, dor, ciúme, inveja, culpa e até pensamentos suicidários. Cristãos – noto – de profunda vida cristã, ancorados em Jesus como a Esperança, o Apoio, o Conforto e a Verdade num Mundo em que o se reduz o real ao que se mostra, sendo usado, astuta e pragmaticamente, por novos Pilatos.

Cada vez mais somos vítimas de pessoas que se deixam enganar pela mentira e, depois, a propagam, a ponto de a Liberdade – que nos faz livres (para nos darmos aos demais) – não mais nos trazer sossego aos nossos corações. Ela passou a comportar, isso sim, conflitos e rasgadelas, embora também nos traga, se a ela formos espiritualmente sensíveis, aquela paz que só o Espírito é capaz de comunicar. Mas Jesus viveu tudo isto até morte na Cruz, e se até aí formos por amarmos, estejamos certos que poderemos entrar com Ele diariamente pela porta da vida e da alegria que devemos levar a todos.

Todas as pessoas merecem o ensejo de se verem atravessadas por estas realidades, mas em especial os jovens. Eles não mentem, pois (como podemos apurar) procuram a Deus e deixam-se achar por Ele. É um erro pensar que os jovens repudiam tudo. Mas se porventura tal ocorrer, comecemos por lhes dar razão até lhes aclararmos a razão com as únicas realidades que devíamos oferece a eles: Jesus e Jesus Eucarístico. Um a um a um. Temos, durante excessivo tempo andado aflitos com os números, em vez de, sendo seres humanizados no e com o Senhor, querermos ligar os jovens (e os demais) a Ele no amor.

(França; 2023; dirigido por Justine Triet; com Sandra Hüller, Milo Machado-Graner, Swann Arlaud, Jehnny Beth e Samuel Theis)