Sessenta anos são passados. E a ‘Obra’ aí está…

Por João Alves Dias

“A Obra Diocesana de Promoção Social celebrou 60 anos de apoio a comunidades vulneráveis, numa cerimónia presidida pelo bispo D. Manuel Linda. O evento foi marcado pela bênção de nove carrinhas elétricas. O bispo salientou que ‘as novas carrinhas vão tornar possíveis quilómetros e quilómetros de solicitude.” (JN, 13/2/2024)

Quem vive no Porto cruza-se diariamente com carrinhas da ‘Obra Diocesana’ que percorrem a cidade no apoio aos mais frágeis.

“A Obra presta apoio a cerca de dois mil utentes e é constituída por 12 centros sociais (em bairros camarários) contemplando 55 respostas, entre as quais creches, pré-escolar, centros de atividades e tempos livres, de dia e de convívio, entre outros.” (JN, 31/1/2024).

E ainda ‘Acolhimento de Refugiados Ucranianos’, ‘Serviço de Apoio Domiciliário’, ‘Centro de Apoio Familiar e Aconselhamento Parental’, ‘Cantina Social’.

Associando-me a essa celebração – nasceu em 14/2/1964 – relembro a sua génese e o seu caráter.

. Fruto do Vaticano II

“A Obra Diocesana traz consigo a marca da sua época: os “anos sessenta” das

grandes utopias, em tempos de Vaticano II. É uma Obra de e da, mas não para a Igreja;

uma obra eclesial, mas não eclesiástica e, muito menos, clerical.

Ao serviço de todos sem distinção de género, idade, cultura, classe ou credo, é de leigos e por leigos. Porém “não é laica, mas assente nos princípios francamente cristãos e acompanhada da acção espiritual”. (A Voz do Pastor, 17/10/1964)”.

Gerada no coração de um bispo, acalentada pelo humanismo de um presidente da Câmara Municipal do Porto, ganhou vida na dedicação e saber de uma mulher.

O bispo foi D. Florentino, preocupado com as gentes pobres compactadas em bairros camarários; o presidente foi o Dr. Nuno Pinheiro Torres; a mulher chamava- se D. Julieta Cardoso, diretora do Instituto de Serviço Social do Porto.

. Caso único no País…

“O seu nome foi mudando. Começou por ser simplesmente a ‘Obra dos Bairros’.  Depois, foi ‘Obra Diocesana de Acção Social nos Bairros da Cidade do Porto’ e ‘Obra Diocesana de Acção Social’. A aprovação dos Estatutos (17/4/1967), consagrou-a como ‘Obra Diocesana de Promoção Social na Cidade do Porto’. Em 1998, passou a ter o nome atual: ‘Obra Diocesana de Promoção Social’.

Apesar destas alterações, a sua designação sempre incorporou o termo ‘diocesana’.

A pertença à diocese é uma das suas notas constitutivas.

A palavra “promoção” que acabou por ser consagrada no diploma da sua constituição jurídica era aquela que mais correspondia aos objetivos da Obra, mas que mais colidia com a linha ideológica do Governo e com a mentalidade dominante de alguma da dita alta burguesia do Porto.

A “Obra Diocesana de Promoção Social” queria promover o desenvolvimento integral do homem como agente da sua própria história, fazer dos habitantes dos bairros “cidadãos de primeira” e ajudá-los a criar novas comunidades quando tinham perdido as antigas referências de vizinhança. Muitos eram os que se sentiam escorraçados das “ilhas” onde nasceram e emprateleirados, como objetos anónimos, em grandes bairros da periferia urbana.

Era caso único no País. Desenvolvia uma atividade comunitária em

que eram os próprios cidadãos os fautores do seu desenvolvimento. Os “pobres” eram, agora, agentes da sua própria transformação, do seu engrandecimento como comunidade.”

Como foi possível o Governo de Salazar dar personalidade jurídica a uma Obra que tinha por objetivo ‘Promover a valorização social dos grupos humanos… consciencializando-os das suas potencialidades…?’

Esse mérito deve-se, essencialmente, a duas mulheres: Dr.ª Manuela Silva, nossa interlocutora no Ministério que nos apoiou junto do Diretor-Geral de Assistência e D. Julieta Cardoso, uma figura discreta, dotada duma extraordinária capacidade argumentativa, que escondia uma inteligência brilhante.” (Nos Alvores da Obra Diocesana)

Sem as mulheres não haveria ‘Obra Diocesana’. Foram elas que lhe deram vida. Lembro as que nela trabalha(ra)m, com realce para a primeira assistente social, D. Maria Augusta Negreiros, e para D. Maria Elisa Barbosa que a ela presidiu nos conturbados tempos do pós-revolução.

A minha homenagem.