Da história da música para a liturgia. Nanino: Diffusa est gratia

Foto: João Lopes Cardoso

Nanino: Diffusa est gratia  

Padre Bruno Ferreira

Aluno de Composição no  Pontifício Instituto de Musica Sacra (PIMS), em Roma

 

Latim:

 

Diffusa est gratia in labiis tuis

propterea benedixit te Deus,

myrrha et gutta et casia

a vestimentis tuis,

ex gradibus eburneis:

ex quibus te delectaverunt

filiae Regnum in honore tuo.

 

[Salmo 44,3.9 (Vulgata)]

 

 

Tradução portuguesa:

 

A graça se derrama em teus lábios,

Deus abençoou-te para sempre.

As tuas vestes são mirra,

aloé e cássia

Dos palácios de marfim eles te alegram (…)

filhas de reis em tua honra

 

 

 

Mais tradicional, sem dúvida, do que a peça de Arcadelt apresentada a semana passada, é o Diffusa est gratia (SATB) (https://www.youtube.com/watch?v=9yRd62EJFJc), de Giovanni Maria Nanino (1543-1607), expoente máximo da escola romana de que Palestrina também fazia parte e com quem terá estudado; por sua vez, Nanino foi professor de alguns dos mais importantes compositores da geração seguinte, entre os quais Felice Anerio (1560-1614) e Gregorio Allegri (1582-1652). Tal como Arcadelt, Nanino foi também muito ativo na esfera profana, compondo mais de quinhentos madrigais.

O seu Diffusa est gratia é um motete de ofertório para a Missa da Purificação, embora se baseie num texto que não é idêntico ao mais comumente utilizado para essa ocasião. Se, de resto, as passagens anteriores enfatizavam sobretudo a figura de Simeão, a de Nanino centra-se sobretudo em Jesus e na Virgem Mariz, embora neste último caso de forma velada (recorde-se que a Festa da Purificação de Maria foi uma das poucas festividades marianas que se mantiveram mesmo no calendário luterano dos inícios).

Apesar da sua brevidade e aparente simplicidade (uma caraterística partilhada por muitos compositores da tradição romana), esta pequena peça é fascinante pelo movimento que Nanino dá às diferentes secções, que são claramente distinguíveis, apesar de nunca serem quebradas; Tal como Arcadelt, embora em menor grau, Nanino utiliza por vezes as diferentes vozes de uma forma que, para o ouvinte, parece inteiramente independente (embora, evidentemente, estejam ligadas por regras contrapontísticas precisas), enquanto noutras passagens (por exemplo, “propterea benedixit“) as emparelha, sugerindo uma justaposição sonora que confere clareza à declamação e intensidade à audição.

O clima de mistério é magistralmente interpretado pelo músico, assim como uma espécie de luminosidade musical que parece remeter para a ligação entre os símbolos da luz e a ocasião celebrada.

Escutemos e apreciemos esta bela obra.