Nem fé, nem amor, nem trabalho

Por Jorge Teixeira da Cunha

A mensagem do Papa Francisco para a Quaresma que agora começa tem por tema “Através do deserto, Deus guia-nos para a liberdade”. Tem todo o sentido aprofundá-la e tentar responder à pergunta originária “Onde estás?” para o tempo que nos é dado viver. Onde estamos, pois, para podermos expor-nos ao influxo divino, criador e redentor da nossa vida individual e da nossa vida comum e eclesial.

Se olhamos à nossa volta, podemos identificar alguns dados que nos podem servir como ponto de partida para uma meditação despretensiosa sobre o caminho de liberdade. Esse caminho pode ser olhado como um caminho de fé, de amor e de trabalho, pois são os aspectos centrais do nosso viver.

No que toca à fé religiosa, o sentir predominante da nossa cultura é a indiferença. Isso é muito preocupante. Ouvimos um pequeno partido propor no seu recente congresso o fim do espeço de Educação Moral e Religiosa Católica que ainda subsiste na escola estatal. Por pouco que isso signifique, dada a pouca força do partido em questão, o simples facto devia dar-nos que pensar. A ideia de que a fé religiosa é um adereço exterior da vida é um dos maiores desafios para a Igreja. Não temos encontrado forma de mostrar a importância da fé religiosa como respiração da subjectividade individual e como exercício primário da liberdade. O nossa Igreja vive manietada pelos seus pecados e vai sobrevivendo no meio dos restos em ruína do seu antigo prestígio. Neste ponto, a mensagem do Papa Francisco é um desafio para o rejuvenescimento do impulso vivencial dos seus crentes, de modo a mostrar como a atitude religiosa é central na promoção da cultura e da saúde individual e social.

A mensagem da Quaresma alude à questão da fraternidade como forma de melhorar a vida comum da humanidade de hoje. É a virtude da caridade que está em causa, como núcleo da vida humana. Ora a caridade é feita de vida de família, de vida social e de vida política. Há um ponto que tem sido posto em evidência pelas estatísticas que é o declínio da fecundidade, a ponto de a Europa, como a conhecemos hoje, estar ameaçada de desaparecer nas próximas décadas. Mas há outro dado relacionado com este: é o declínio do desejo sexual tanto dos homens como das mulheres na vida conjugal. Dá que pensar, na linha do robustecimento da esperança de que fala a mensagem do Papa. As pessoas não amam nem procriam porque não têm esperança. Ora a esperança é o centro do cristianismo e necessita de passar para o terreno com a maior urgência.

Há uma terceira questão que podemos ajuntar à descrição da crise que estamos a fazer como ponto de partida para um programa de conversão quaresmal. É o tema do trabalho. Aqui, podemos seguir por dois caminhos. O mais preocupante é que muito dados em circulação nos falam do esgotamento das pessoas no trabalho. Isso é sintoma de um grave mal-estar. O outro aspecto é o das pessoas que estão fora do trabalho e se habituaram a uma existência de marginalidade em relação à actividade laboral. Um e outro dos aspectos de uma distorção grave do caminho para a liberdade, pois o trabalho faz parte da vida de uma forma essencial.

E muito preocupante que o nosso tempo viva uma existência virtual, quer dizer, separada da verdadeira vida a que o Evangelho de Jesus nos inicia. É aqui que se torna urgente a inclusão das pessoas na fé, pois essa inclusão é o centro da liberdade, da cidadania e da felicidade. Os europeus de hoje passeiam candidamente o seu cão ao crepúsculo, de telemóvel no ouvido e não olham de frente o pôr do sol. Passam ao lado da vida verdadeira. Deixaram de ouvir Deus e o mistério fundador da realidade. O Evangelho é mais necessário do que o pão para a boca da nossa geração. Urge o aparecimento de gente apostólica de grande vivência espiritual e de grande valentia para reiniciar o porvir á fé em Cristo, para lá do inverno da nossa Igreja de hoje.