O Diálogo Ciência-Fé na atualidade – (II)

Por João Alves Dias

(Continuação do número anterior)

Para repensar, hoje, o diálogo Ciência-Religião, impõe-se respeitar dois pressupostos: a autonomia do mundo, proclamada pelo Vaticano II e o ‘Princípio de todos os princípios’ formulado pelo filósofo E. Husserl (1859-1938).

– A autonomia do mundo significa que tudo o que existe no mundo funciona segundo leis próprias sem qualquer tipo de interferências extraterrenas. Este é um pressuposto comum a todos as ciências. E a nível teológico, será a ideia mais revolucionária do Vaticano II.

Se se entende que as coisas criadas e as próprias sociedades têm leis e valores próprios, que o homem irá gradualmente descobrindo, utilizando e organizando, é perfeitamente legítimo exigir tal autonomia. Para além de ser uma exigência dos homens do nosso tempo, trata-se de algo inteiramente de acordo com a vontade do Criador. Pois, em virtude do próprio facto da criação, todas as coisas possuem consistência, verdade, bondade e leis próprias, que o homem deve respeitar, reconhecendo os métodos peculiares de cada ciência e arte. (Gaudium et Spes, nº 36)

Isto significa que tudo, absolutamente tudo, o que sucede no mundo tem uma causa dentro do mundo. De modo que, conheçamo-la ou não, do ponto de vista religioso não se deve buscar uma causa não-terrena, seja divina ou diabólica, que a explique.

Esta afirmação, à primeira vista, poderia implicar a exclusão da presença ativa e salvífica de Deus no mundo. Porém, o mesmo Concílio, logo de seguida, indica onde reside o seu único limite real e verdadeiro:

“Se, porém, com as palavras ‘autonomia das realidades temporais’ se entende que as criaturas não dependem de Deus e que o homem pode usar delas sem as ordenar ao Criador, ninguém que acredite em Deus deixa de ver a falsidade de tais assertos. Pois, sem o Criador, a criatura não subsiste. De resto, todos os crentes, de qualquer religião, sempre souberam ouvir a sua voz e manifestação na linguagem das criaturas. Antes, se se esquece Deus, a própria criatura se obscurece. (Gaudium et Spes, nº 36)”

Ou seja, quanto às causalidades e explicações intramundanas de qualquer facto ou fenómeno, não existe limite para afirmar a autonomia. A única condição consiste em manter clara a dependência absoluta que toda a realidade criada mantém em relação ao Criador.

Refletindo sobre a frase de Karl Rahner,”Deus atua o mundo, não atua no mundo”, afirma que Deus está criando o mundo para que ele possa existir.

– O Princípio de todos os princípios – Estoutro pressuposto, de matriz filosófica, afirma que nenhuma ciência deve ser invadida ou anulada pelos direitos e privilégios de outra. No seu campo de investigação e na sua intencionalidade específica, o rigor e a especificidade da matemática não são superiores aos da biologia ou da ética.

As normas, os procedimentos próprios de qualquer ciência não podem ser suplantados ou julgados pelos de outra. O mesmo acontece com a proposição filosófica ou teológica: tem a sua autonomia e, só a partir dela, deve ser interpretada e julgada.

A cultura atual dispõe aqui da base irrenunciável para um espirito de diálogo mais sereno e objetivo entre ciência e teologia. Teólogos e cientistas têm um novo campo de encontro e compreensão mútua. As suas disciplinas possuem a mesma dignidade de princípio e gozam da mesma autonomia.

Todas as ciências tratam do funcionamento e interação das realidades mundanas entre si. Também a teologia. Porém, a esse tratamento comum e ao respeito da sua autonomia, a teologia acrescenta a preocupação de estudá-las enquanto criadas por Deus, buscando compreender o que isso significa para a existência humana. É o que indica o Concílio ao falar da dependência do Criador.

Estas afirmações fizeram-me lembrar a frase de Galileu: “A intenção do Espírito Santo é ensinar-nos como se vai para o céu e não como vai o Céu”.

A ciência e religião têm intencionalidades específicas que não colidem, se cada uma respeitar os limites do seu objeto.

Depois de aprofundar as consequências da teologia da Criação, Torres Queiruga termina:

“Prefiro fechar estas reflexões com as palavras de Jesus:

“Eu te bendigo, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra… (Mt, 11,25)

Esta é a ‘teologia’ tão querida ao papa Francisco que, em 30 de novembro de 2019, disse: ‘a teologia nasce e cresce de joelhos’