De novo o valor da comunicação social

Por M. Correia Fernandes

Em 24 de janeiro de cada ano, no dia dedicado a S. Francisco de Sales, padroeiro dos profissionais da comunicação, o Papa publica desde há 58 anos, uma mensagem de reflexão sobre temas oportunos do jornalismo e da comunicação social, cujo dia se tem vindo a celebrar no Domingo da Ascensão, este ano em 12 de maio.

Os temas abordados nas diversas mensagens têm procurado responder a situações ou acontecimentos relevantes de cada ano. Foi na sequência do Decreto conciliar “Inter mirifica” (1966), que os pontífices procuraram elaborar mensagens sobre temas da comunicação que em cada tempo pareceram mais oportunos. Para  nos reavivar a memória, podemos encontrar nas mensagens temas como o progresso dos povos, a família, a juventude, o serviço da verdade, a promoção dos valores espirituais, a evangelização, a reconciliação, a publicidade, os idosos, a promoção da justiça e da paz, a promoção da mulher na sociedade, a  comunicação global (já em 2001), o serviço da paz, a compreensão entre os povos, as novas tecnologias e novas relações humanas, redes sociais e comunidade humana.

Por esta relação se vê  a preocupação que os sucessivos pontífices vêm manifestando por problemáticas atuais da comunicação.

O Papa Francisco voltou-se mais para os aspectos personalistas e pessoais da comunicação, falando do “escutar com o coração” (2022),  da misericórdia, da confiança e a esperança.

Este ano, mais uma vez em função desta atenção às temáticas mais atuais, e na sequência do tema já apresentado na última mensagem da paz, volta-se de novo para a tão falada inteligência artificial.

Importa situar  ângulo de visão, que define a intencionalidade da mensagem:  Inteligência artificial e sabedoria do coração: para uma comunicação plenamente humana. Associam-se assim duas dimensões: a sabedoria do coração e o sentido do plenamente humano, no contexto da “mudança cultural em curso”.

As linhas de rumo definidas pelo Papa evidenciam pois “o olhar espiritual”, e a “sabedoria do coração”, sendo que este é o caminho proposto para associar a realidade tecnológica com a identidade humana.

O gesto de alertar para o uso do conceito “inteligência”, que considera falacioso, para significar essencialmente o aperfeiçoamento das capacidades tecnológicas para o domínio de dados e de memória captada ou o “património enorme de conhecimentos”, e o valor humano da sua utilização, alertando para a facilidade da sua utilização nos campos da falsidade. Por isso propõe que se encontrem “modelos de regulamentação ética”, lembrando a possível utilização socialmente injusta, como a “redução do pluralismo, a polarização da opinião pública ou a construção do pensamento único”.

Por isso o Papa apela à “Comunidade das Nações” no sentido de trabalhar “para adotar um tratado internacional vinculativo, que regule o desenvolvimento e o uso da inteligência artificial nas suas variadas formas”, sugerindo assim um caminho para “crescer em humanidade”.

Valoriza ainda as possibilidades positivas do uso das propostas digitais, lembrando que podem “tornar-nos mais livres”, buscando e aumentado “o pluralismo da informação”, que possa respeitar a verdade e a pessoa, e não “se perder num pântano anónimo, favorecendo os interesses do mercado ou do poder”, ou “uma montagem de dados não certificados”. Propõe mesmo que a inteligência leve ao conhecimento do sofrimento das crianças, das mulheres e dos homens ajudando  a “compreender o caráter absurdo das guerras”.

O garantir a transparência dos processos de informação deve tornar-se um caminho a seguir, evidenciando que “a resposta não está escrita; depende de nós. Compete ao homem decidir se há de tornar-se alimento para os algoritmos ou nutrir o seu coração de liberdade”.

Vemos assim como a mensagem evidencia o valor dos processos técnicos (por trás da inteligência tecnológica está sempre a criação e a ação do homem), apelando aos valores éticos, espirituais, sociológicos e humanísticos de todo o processo, para “orientar os sistemas da inteligência artificial para uma comunicação plenamente humana”.