O Diálogo Ciência – Fé, na Atualidade (I)

Por João Alves Dias

Novo arcebispo de Santiago de Compostela defende o galego na liturgia” (7Margens, 15/1/2024).

Esta notícia veio confirmar o espírito de abertura do novo arcebispo já demonstrado quando convidou Torres Queiruga, ostracizado pelo antecessor, a dissertar sobre ciência e religião, nas XXXII Jornadas de Teologia (6/9/2023) do Instituto Teológico Compostelano.

A conferência do antigo professor de teologia do Seminário e de filosofia da Universidade de Santiago, com vasta obra publicada – o original sempre em galego –  motivou uma reflexão dum grupo de cristãos do Porto que me fez chegar o link de que me faço eco.

O conceituado teólogo começa por afirmar que, com o problema dos conflitos entre Ciência e Religião, acontece algo parecido com o que dizia Nietzsche a respeito daquelas estrelas que continuam a brilhar, ainda que possam estar apagadas há milhares de anos.

Os cientistas, que sabem manter as teorias no estrito campo da sua existência, não pretendem hoje legislar intelectualmente nos demais, seja na ética, na estética ou na filosofia; tão-pouco na teologia.

E os teólogos, que fazem o mesmo no campo da sua competência, aprenderam a manter a mesma atitude nos problemas próprios das outras ciências.

Mas é preciso contar com o tempo de maturação. E lembra o que já dizia o jesuíta e teólogo Karl Rahner (1904-1984): “Vivemos juntos com descendentes atrasados do século XIX”. E isto é tão válido para os teólogos como para os cientistas.

Não é, pois, de admirar que a relação entre ciência e religião ainda não seja tão pacífica como deveria ser.

E para confirmar esta dicotomia, refere as atitudes de dois amigos e grandes matemáticos que escreveram juntos  os três volumes monumentais dos “Principia Mathematica”: Bertrand Russell e Alfred Whitehead.

Enquanto Russel continuou até final, num estilo belicoso, a proclamar uma incompatibilidade absoluta entre religião e ciência; pelo contrário, Whitehead abandonou o positivismo e converteu-se no grande denunciante da ‘falácia da falsa concretitude’ por parte duma ciência que pretende identificar a sua visão setorial com toda a realidade.

Estamos perante um problema complexo que nos convida a prescindir, de modo radical, de extremismos anacrónicos. Por isso, não vale a pena perder tempo com as simplificações e dogmatismos filosófico-religiosos dos ‘novos ateus’ que pretendem falar a partir da fundamentação científica nem com as simplificações paralelas dos fundamentalistas ‘anti-evolução’ que pretendem fundamentar-se na verdade religiosa.

Na linha do teólogo Rudol Bultmann (1884-1976), começa por afirmar que “para a cultura antiga e, dentro dela, para o Novo Testamento e para a teologia clássica, o nosso mundo era uma espécie de cenário continuamente trabalhado por intervenções extraterrenas benignas, as celestes, e malignas, as infernais”.

Entre um ‘Deus passivo’ e um ‘Deus intervencionista’ foi o esquema que dominou durante séculos o imaginário teológico, condicionando de modo decisivo a interpretação das suas verdades fundamentais.

Porém, hoje, nem mesmo os mais tradicionalistas continuam a atribuir a chuva a Deus e as doenças ao diabo.

A maior dificuldade não está em reconhecer a nova visão científica, mas, sim, em levar a cabo uma correspondente reinterpretação teológica que vença o dilema tradicional em torno do ‘deus passivo’ e do ‘deus intervencionista’.

– O ‘deísmo’ apresenta Deus como o grande relojoeiro ou genial arquiteto que, no princípio, criou o mundo como uma máquina perfeita que agora funciona por si mesma enquanto que Ele permanece lá no Céu sem qualquer tipo de presença ativa, até ao Juízo Final.

Esta conceção, que não satisfaz a consciência religiosa dum Deus vivo e operante continua, ainda hoje, a dominar certos estratos da consciência coletiva.

– A conceção ‘intervencionista’ fala dum Deus no Céu, atento ao mundo, mas passivo, e atuando só com intervenções pontuais, de caráter mais ou menos milagroso.

Hoje, parece claro que a aposta da teologia é a de, tendo em conta os fatores que configuram a atual situação cultural, encontrar uma solução que não obrigue o crente a ter de escolher entre o ‘deus passivo’ e o ‘deus intervencionista”.