O Cinema visto pela Teologia (96): Ferrari

Uma leitura do filme “Ferrari

Por Alexandre Freire Duarte

Um vigoroso e denso vermelho corre neste “Ferrari”; e corre de diversas maneiras impressivas numa operática obra biográfica arrepiante e impressiva que, com o seu conciso arco narrativo, se torna numa obra brilhante e intoxicante. A emoção, mesmo a estoicamente oculta, é turbulenta nas vertentes de suspense doméstico e de competição crua, e os detalhes são exímios, ajudando suavemente a que o que de vulcânico se passa abaixo da estimulante superfície seja o obscuro motor de uma história ativa, visceral, épica e íntima que, em certos momentos, nos fará suspirar, fechar os olhos e lacrimejar.

Driver é solene, vivo e convincente no seu calculado maquiavelismo quente e frio dentro e fora do âmbito profissional; Wooley desilude; Dempsey é deliciosamente manhoso; mas Penélope Cruz é elétrica e domina tudo ao seu redor quando aparece com amargura, paixão, malícia, raiva e tristeza manifesta ou, sobretudo, silenciosa. A artística fotografia aposta nos cenários italianos e no classicismo; as câmaras são austeras quando gravitam, aproximam-se e afastam-se; por fim, a arrebatada edição liga tudo com gosto.

Desde o olhar da teologia há, logo, uma certeza: este filme, com a sua honestidade brutal, é a vida tal como ela é, com ou sem Deus. A saber: um choque entre dois vetores que se movem em sentidos opostos: o da inclemência, contradição, frialdade e o da bondade, compaixão e amor. Caos (de sobrevivência fruto do instintivo) e ordem (de Sobrevivência como efeito de vivermos numa terna graça que dá sentido a tal choque).

Se todos os cristãos fossem tão determinados no seu seguimento a Jesus como Enzo Ferrari foi em relação ao automobilismo, seriamos todos santos. Mas não. Somos pessoas desconfiadas na fé; resignadas na alegria; melancólicas na esperança e medianas no amor. Em suma: incapazes de articularmos a vida no Senhor com a vida comum por receio do preço da felicidade que se expande (incessantemente e, assim, para o desconhecido) no dito amor. Isto é um contrassenso. Mas sim: onde está a nossa resolução; a aceitação de que a liberdade para a missão tem um preço; e de que a vida é um drama divino-humano?

Já nos demos conta de que a felicidade não vem do satisfazermos as nossas próprias necessidades (mas façamo-lo a quem, por si só, não o logra), mas de sermos precisados? E sê-lo sobretudo por Deus? Sim: Deus quer precisar de nós, para amarmos o que Ele ama; para desprendermo-nos das amarras do “ego” e, de uma vez por todas, trocarmos as nossas imagens caricaturais de Si pelas dadas pelo Erguido no Calvário devido à ânsia do amor que Lhe fez levar o mundo nos ombros do coração (como parece advir a Enzo nesta obra). Sim: vamos cair e magoar-nos nesse caminho. E depois? Desde que cresçamos…

O amor de Deus em nós não nos impede de pecar, mas garanto que tornará isso em algo doloroso em todo aquele que não tiver um coração de metal, por mais cromado que esteja. Ora, para que isto ocorra, não se deve correr de frente contra o mal, mas cultivar o bem que abafa as causas egoístas do mal. Fazer isto não é ficar quieto e mudo; é entrar no Silêncio que é a fonte da Palavra verdadeira, dita sublimemente na Bela Liturgia. Porém, às vezes penso que as formas habituais de rezar passaram a ser o cemitério (árido e desabrigado) onde a genuína oração cristã está a ser (obcecada e tragicamente) sepultada.

(* EUA, Reino Unido, Itália, China; 2023; dirigido por Michael Mann; com Adam Driver, Patrick Dempsey, Shailene Woodley, Penélope Cruz e Tommaso Basili)