Bênçãos: para a glória de Deus e a santificação dos homens

Foto: Rui Saraiva

Por Secretariado Diocesano da Liturgia

As bênçãos são parte integrante dos chamados «sacramentais». Estes chamam-se assim porque, no termo de um processo histórico, se veio a concluir que, apesar das analogias que ostentam com os sete «sacramentos», só podem dizer-se «sacramentos» no diminutivo… «Sacramentalia», isto é, sacramentinhos! Mas nem por isso se desconsiderem! Segundo o Catecismo da Igreja católica, a grande finalidade dos sacramentais é a santificação: ministérios, estados de vida, circunstâncias variadas da vida cristã, o uso de coisas úteis ao homem… As bênçãos têm assim uma finalidade geral comum a todas as ações litúrgicas: a santificação do homem e a glória de Deus. Elas são memorial da Bênção divina da Criação e da Redenção e, ao mesmo tempo, epiclese da nova Criação e do Reino (nº 1688).

Em que consiste esta «salvação» do homem? Simplificando, podemos dizer que a «salvação» aparece-nos na celebração das bênçãos como promo­ção do homem na integridade do seu ser e da sua vocação. Ao homem «desintegrado» pelo pecado – e por isso em processo de desagregação, corrupção e morte – a bênção contrapõe um homem íntegro e integrado na sua relação com o mundo, com os outros homens e com Deus. Em vez da divisão e do conflito, a unidade e a paz; em vez da morte, a vida.

Uma das características que singulariza a Celebração das Bênçãos [= CB], em confronto com os seus antecedentes do Ritual e Pontifical Romano é a precedência que nele se dá as pessoas sobre as coisas. De facto, a primeira das suas cinco partes é toda dedicada às «bênçãos que se referem mais diretamente às pessoas». As numerosas bênçãos de coisas ou lugares relacionados com a atividade humana ou com a piedade e o culto, em última análise visam as pessoas «que utilizam essas coisas e atuam nesses lugares»: «Na verdade, o homem, em cujo favor Deus quis e fez boas todas as coisas, é o recetáculo da sua sabedoria, e por isso, com a celebração da bênção, o homem pretende manifestar que utiliza de tal modo as coisas criadas que, com o seu uso, busca a Deus, ama a Deus e serve fielmente o único Deus» (CB 12).

O Bendicional promove assim a assimilação de uma antropologia radicalmente bíblica que vê o homem como o único ser da criação que Deus quis por si mesmo: nisso consiste a sua dignidade de pessoa, imagem e interlocutor do próprio Deus. O ser humano está, assim, vocacionado para ser o louvor perene e a voz da criação que sem cessar suscita no seu coração e nos seus lábios o «elogio» do Criador magnífico.

Na celebração das bênçãos sempre se exprime a vocação do homem à santidade (CB 9). Mas isso não comporta necessariamente uma «sacralização» de pessoas e coisas. Prescindindo das poucas bênçãos chamadas «constitutivas», pelas quais se subtrai de modo perma­nente uma pessoa/lugar/coisa ao uso profano dando-lhe uma destinação cultual, as bênçãos não mudam a realidade profana de uma coisa, mas antes exprimem a finalidade da mesma ao serviço de Deus, finalidade essa que implica sempre uma resposta positiva por parte do homem: a santidade. O Catecismo da Igreja católica explica: «as bênçãos… compreendem, ao mesmo tempo, o louvor a Deus pelas suas obras, e a intercessão da Igreja para que os homens possam fazer uso dos dons de Deus segundo o espírito do Evangelho» (CatIC 1678).

A plena eficácia das bênçãos pressupõe que os fiéis as celebrem com reta disposição de espírito: «Aqueles que pedem a bênção de Deus por meio da Igreja devem fortalecer a sua disposição de espírito naquela fé para a qual nada é impossível; apoiem-se na esperança, que não ilude; e sobretudo sejam vivificados na caridade, que impele a observar os mandamentos de Deus» (CB 15). É por isso que o Ritual sente a necessidade de explicar que nem sempre há lugar para a bênção e que cada celebração se deve submeter a um justo critério pastoral, sobretudo se pode provocar estranheza ou, até, escândalo. Tal seria o caso se se pretendesse «cobrir» com uma bênção coisas, lugares ou circunstâncias que estejam em contradição com as normas e o espírito do Evangelho (CB 13, 1245).

A pessoa que bendiz e abençoa é alguém que se reconhece pobre. Mesmo quando se alegra ao descobrir-se abençoada, ao reconhecer-se como recetáculo e destinatária dos bens criados, ela sabe que não é dona, autora, produtora. E, por isso, bendiz, confessa, agradece. E é assim a Igreja que canta o Magnificat: pobre e humilde, comunidade dos crentes sabe-se abençoada porque está em comunhão com Cristo Ressuscitado, o vencedor. E, uma vez abençoada, bendiz e torna-se bênção: os pobres, os desamparados experimentam, na sua comunhão de amor, a bênção que os levanta e sacia. E por isso bendizem a Deus.