O Cinema visto pela Teologia (95): “Dias perfeitos”

Uma leitura do filme “Dias Perfeitos*

Por Alexandre Freire Duarte

“Dias Perfeitos é um belo e vivo drama meditativo quase documental que nos toca empaticamente de uma forma lenta mas cativante. Focando-se no estudo da identidade de uma das suas personagens, este filme, verdadeira celebração da gratidão, engana-nos com a sua aparente simplicidade monótona e lirismo refinado. Sim: a obra é clara e minimalista, mas também é totalmente sincera e modesta, numa ode a uma beleza ferida e feridora, diversas vezes pontilhada com humor e surpresas sem laços definidos.

Este filme é a cidade de Tóquio no seu equilíbrio entre o humano e a criação, mas é mormente a presença soberba e natural de Yakusho e do seu expressivo rosto. Este ator, quase sem palavras, é um poço de sentimentos que o fundem num magnetismo que diz tudo através de movimentos delicados e do olhar. O ambiente citadino é charmoso e tudo parece etéreo: a luz quase efémera, os esquiços poéticos dos sonhos, a música eleita de modo sublime e as cores a bailarem entre o intenso e caloroso e o melancólico e eriçado.

“Dias Perfeitos não é um filme cristão, e nunca o cristão deveria enveredar por uma autoinduzida placidez sem compromisso com o Mundo, mas as sementes de Jesus, que tudo sustém, estão espalhadas por todo o lado. Nesta obra vemos especialmente a já assinalada gratidão, que n’Aquele nos permite ver tudo desde Deus e Deus desde tudo, ajudando-nos a não querermos ter o que nos apetece, mas a querermos o que temos para o dar de graça. Eis o que nos pode levar a apreciar tudo e a reconhecer atónitos que se nos dermos totalmente quiçá pouco entendamos, mas saborearemos muitíssimo no amor.

Mas isto só é exequível se arriscarmos a sair do bulício do caos insalubre, artificial e antinatural em que vivemos nas nossas sociedades (ditas “modernas” e “humanistas”) e deixarmos que caridade se dê conta da Presença, transformada num indutor, sob qualquer realidade (por mais sombria que esta seja). Se a vida é rotina, também pode ser espanto e encanto vividos: na doçura da alegria do serviço; na dignidade da atenção prestada a quem nos serve por ofício; no abandono à generosidade e à bondade do momento atual; no deixarmos de viver leis e/ou ímpetos “ego”-referentes e passarmos a viver Deus; etc.

Mas saberemos acolher a felicidade e a tristeza com a mesma paz? Saberemos falar para anunciar e denunciar com o mesmo ardor? Saberemos viver ante um Deus-Amor que nos entrega duas vezes (o que nos oferece e o que nos implora) o que nos dá? Não sei. Todavia creio que não estamos assaz livres para vivermos no amor que nos resgata do egoísmo; no amor que nos pede imenso; no amor que faz com que os cargos deixem de obscurecer as pessoas; no amor que nos faz chorar por tanto que nos foi perdoado.

Não há (vemos neste filme) ofícios mais dignos do que outros, mas todos queremos algo melhor. É a nossa natureza. Mas por melhor que seja um trabalho ou um salário, isso não garante absolutamente nada se na ponta do que fizermos (seja isto o que for) não estiver o oposto do caos – oposto esse que não é o vazio, mas a plenitude do amor. Dito isto, fujamos de promessas de perfeição rápida: são palha sequíssima que voará com a mais pequena brisa do Espírito. Demos tempo ao amor para não sacrificarmos o que só vem, quiçá imperceptivalmente, com a maturidade e não com o imediato (que impede ver a beleza súbita do banal e a realização divino-humana até nas memórias mais ásperas).

(* Japão, Alemanha; 2023; dirigido por Wim Wenders; com Kôji Yakusho, Tokio Emoto, Arisa Nakano e Aoi Yamada)