O Cinema visto pela Teologia (94): “Estás aí, Deus? Sou eu, a Margaret”

Uma leitura do filme “Estás aí, Deus? Sou eu, a Margaret*

Por Alexandre Freire Duarte

Após a breve pausa precedente, retomo com aquele que creio que foi o melhor filme de 2023 (após “A Rapariga Tranquila”, n.º 52 desta rubrica). Ao contrário do ano passado, não espero acertar em cheio em quem ganhará os Óscares. Mas essa nunca foi a minha intenção. Pois bem, apesar de não ter visto esta obra no cinema, “Estás aí, Deus? Sou eu, a Margaret é uma comédia dramática, nostálgica, sensível e sobretudo honesta (e, assim, deferente) sobre: a pré-adolescência e a demanda da identidade própria no Mundo, na família e no meio dos amigos; e uma bela, mágica e inocente busca por Deus.

Apesar de não lutarem pelo protagonismo no ecrã (ou quiçá por isso) Fortson (ansiosa, inteligente, perspicaz e estratificada) e McAdams (calorosa, protetora, visceral e camaleónica) são espantosas. Bathes também brilha e dá um toque de apuro e de humor no meio do tratamento de diversos temas sensíveis, que são bem acompanhados por: o guarda-roupa, a música colorida e luminosa, a edição rugosa e os jogos de câmara.

Quem não se lembra das dores da sua pré-adolescência, adolescência e juventude, com as vergonhas e comparações (mormente biológicas) com os demais, dos desejos de se integrar com estes para ter alguém com quem falar (nomeadamente sobre o que as hormonas nos faziam pensar e sonhar), os murmúrios e maledicências e, sobretudo, o “lutar” (interior e/ou exterior) contra as figuras importantes (de autoridade) que não se sabia como amar. E no caso das meninas, acrescente-se a isto a c-r-u-e-l “monstroação”.

Muitas vezes é neste período que ou se sustenta ou se quebra a nossa possível relação com Deus. Não o deus amorfo e impessoal presente neste filme, mas o Deus-Jesus e o Seu olhar misterioso sobre nós. Se tal olhar for crido como devasso, tirânico e despótico (inclusive face ao que de mais natural ocorre em nós) talvez se fuja d’Ele, mas se a compaixão e a compreensão forem as Suas “imagens de marca”, então poder-se-á querer continuar ligado a Alguém tão bom e até demasiado bom. E isto, no aceitar que se nos apetecem imensas coisas, necessitamos principalmente de ser queridos e amados.

Tal como este filme mostra, a família (e, nos nossos dias, todos os membros de uma comunidade) é uma ajuda fundamental para o antes mencionado querer, mas somente se todos reconhecermos que estamos num processo comum de crescimento; que somos pessoa imperfeitas que cometem erros dolorosos, mas que, ao mesmo tempo, se entreajudam enquanto apoiadas (a)tematicamente numa teologia que não é indiferente.

Se a teologia fosse algo sem relevo, “qualquer coisa serviria”. Mas não serve. Há dias perguntei ao meu filho de 5 anos (a quem educo no começar a falar com Jesus) o que ele sentia a ver as imagens d’Este ferido para curar o nosso amor. Fiquei atónito com o que ele disse: “sinto que Ele Se apaga, mas só para me fazer brilhar”. Não sei o que ele quis dizer com isto, mas como gostaria que todos nós vivêssemos tais palavras nuas do teólogo Chico como algo de matricial para as nossas vidas de discípulos do Senhor.

Foi igualmente impactante o ver que, nesta obra, não se ocultavam os pequenos e grandes sacrifícios, traumas e portos de abrigo do amor vividos graças a uma difusa mas clara (pois nada moralista) bússola espiritual e moral. Aquela que sendo Cristo (exaurido sobre e sob tantos pontos de vista), nos despega de nós para nos entendermos melhor.

(* EUA; 2023; dirigido por Kelly Fremon Craig; com Abby Ryder Fortson, Rachel McAdams, Benny Safdie, Kathy Bates, Elle Graham, Amari Price e Aidan Wojtak-Hissong).