A árvore não pode esconder a floresta

Por Joaquim Armindo

O provérbio africano de que “A Árvore não pode esconder a Floresta”, está muito bem aplicado à Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, a decorrer entre 18 e 25 do mês corrente, porque de facto qualquer tradição cristã não “pode”, nem “deve”, esconder o brilho da diversidade dessas tradições cristãs. Todas elas no esplendor da floresta que está em Jesus Cristo, por isso todas são palavras do Evangelho, que se admitem Tradições, são completas com a Palavra e, consequentemente, com a Razão. Tenhamos todos a unidade no essencial, diversidade no duvidoso e amor (caridade) em tudo. O problema está no que é “essencial “e no “duvidoso”, porque, creio, todas creem em Jesus e se esforçam por cumprir o mandamento do amor, que como refere Lucas (10,24) “Amarás o Senhor teu Deus…e ao próximo como a ti mesmo”, que é o tema desta oração universal pela unidade dos cristãos. Por exemplo, é essencial todos nos reunirmos a uma mesa eucarística ou santa ceia e Deus quer, nós é que não queremos, embora façamos todas as orações pedindo a Deus o faça! Curioso o Apêndice 5, do guião rezado pela Comunidade Chemin Neuf, sobre isso. Diz assim: “Para ilustrar e vivenciar isso [o sofrimento causado pela separação], duas pessoas carregam em procissão um cálice e uma patena vazios e colocam-nos sobre o altar, simbolizando a nossa separação e o pecado da divisão. […] acreditando que um dia estaremos todos reunidos à mesma mesa para partir juntos o pão (Lucas 22,19).

Os materiais para animação desta semana foram elaborados pela Comunidade Chemin Neuf, Arquidiocese Católica de Uagadugu, das Igrejas de tradição protestante, anglicana e evangélica, e de outros órgãos ecuménicos de um país com a situação económica, política, social e cultural instáveis: o Burkina Faso (cujo nome antigo era o Alto Volta) e constitui um esforço conjugado no essencial “amar o outro”, num país onde dos 21 milhões de habitantes, 64% é muçulmana, 9% de religiões africanas e 26% cristãos (20% católicos e 6% das outras tradições religiosas). A insegurança que este país passa contribuiu em muito para este “dar as mãos”, para serem uma presença de Jesus, sem quererem “converter” outros. Os cristãos são atacados violentamente e mortos, isto favorece e muito uma unidade ecuménica latente. Refira-se que a “Comissão de Diálogo Cristão-Muçulmano da Conferência dos Bispos Católicos do Burkina-Nigéria está a fazer um grande esforço para apoiar o diálogo e a cooperação inter-religiosa e interétnica.”

A “Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos”, da responsabilidade do “Conselho para a Unidade dos Cristãos” (Católica Romana) e da Comissão Fé e Constituição do Conselho Mundial de Igrejas, poderá ser um ponto culminante ou um ritualismo repetitivo. Pedir a Deus a unidade, sem nós a querermos, é de facto passar ao lado do homem que jaz ferido na estrada, mas porque não é das nossas “cores”, aí o deixamos, enquanto um inimigo lhe cura as feridas.