Da historia da música para a liturgia: o Tempo Ordinário

Foto: João Lopes Cardoso

Por padre Bruno Ferreira* 

O que hoje se chama “Tempo Comum” era antigamente designado como o ciclo dos domingos “depois de Pentecostes” no âmbito católico, ou “depois da Trindade” pelos luteranos; esse tempo compreende, numericamente, a maior parte dos domingos do ano litúrgico, e é um período repleto de festas de santos ou de memórias particulares.

Uma vez que a adoção do ciclo trienal de leituras festivas após o Concílio Vaticano II revolucionou radicalmente a ligação entre a Palavra proclamada ao Domingo e os cantos prescritos do Proprium, seria difícil apresentar organicamente este período litúrgico com referência à prática hodierna. Decidi, por isso, dedicar algum espaço, nesta rúbrica e nas seguintes, às figuras de dois compositores que foram muito prolíferos no âmbito da música sacra das respetivas confissões, deixando-nos um legado organizado de música para o Proprium.

É de salientar o grande espírito de serviço destes dois músicos: compor para o Proprium (por iniciativa própria ou por encomenda, não muda muito) significa escrever para ajudar a assembleia na sua oração, numa ocasião muito específica; enquanto um Ordinarium Missae pode ser usado inúmeras vezes, as composições ocasionais visam, humildemente, a ordinariedade do rito.

Giovanni Pierluigi da Palestrina

O primeiro dos dois grandes compositores que quero apresentar, entre os maiores que se dedicaram sistematicamente aos ritos cristãos e ao seu calendário, é Giovanni Pierluigi da Palestrina (1525-1594). De facto, pode dizer-se que este músico católico se tornou um símbolo da música litúrgica em geral, também porque o seu exemplo foi explicitamente referenciado nos documentos oficiais do Vaticano, depois de ter constituído a referência do “stile antico” utilizado na música sacra durante séculos (não só no âmbito católico) e de ter sido tomado como modelo, debatido e estudado sempre que se tornava atual o debate sobre as características que a música litúrgica deveria possuir.

Giovanni Pierluigi, nascido em Palestrina (Pierluigi é, de facto, o seu apelido), passou a maior parte da sua vida em Roma, onde estudou, compôs e participou na vida das Capelas papais da época (a Júlia e a Sistina). Escreveu mais de uma centena de Missas (ou seja, “conjuntos” de peças do Ordinarium Missae), motetes, Salmos e Magnificat, bem como outras peças sacras e numerosos madrigais (profanos). A sua música foi estudada pelos maiores compositores contemporâneos a ele e nos séculos seguintes, incluindo Bach; a sua importância histórica é, portanto, de primeiríssimo plano. O estilo de Palestrina, muito apreciado, é efetivamente uma mistura muito eficaz entre a grande tradição polifónica franco-flamenga dos séculos anteriores e uma sensibilidade talvez mais “mediterrânica” pela elegância e suavidade do canto; inegavelmente, a sua música está impregnada de uma piedade genuína e sincera, de um misticismo normalmente composto, mas não menos profundo e intenso.

O seu imenso legado musical ao catolicismo e ao cristianismo – mas também a tantos não cristãos que se comoveram com as suas composições – inclui também os Offertoria, publicados em 1593: um conjunto de sessenta e oito peças polifónicas que revestem de notas as antífonas dos Ofertórios festivos do ano litúrgico. Publicados quando o maestro já estava na casa dos setenta anos, resumem a sua sabedoria compositiva, a sua experiência e a sua vida espiritual, e constituindo uma suma que recolhe o melhor da sua produção neste domínio para o transmitir à posteridade.

Sugiro, então, para esta semana a audição do motete palestriniano “Iubilate Deo universa terra” [para 5 vozes mistas] (https://www.youtube.com/watch?v=-esuKOfa8XE) da Antífona do Ofertório do Domingo II do Tempo Comum (“Dominica secunda post Epiphaniam”) tirada do Salmo 65 (Sl 65, 1. 2. 16) com o seguinte texto:

 

Latim:

Iubilate Deo universa terra,
psalmum dicite nomini eius.
Venite et audite, et narrabo vobis,
omnis qui timetis Deum,
quanta fecit Dominus
animae meae, alleluia.

 

 

Tradução portuguesa:

 

(Levantai vozes de júbilo a Deus, toda a terra,

cantai um salmo ao seu nome.

Vinde e escutai,

todos vós que temeis a Deus,

e eu contar-vos-ei o que o Senhor fez

pela minha alma, aleluia!

IOAN. PETRO ALOYSIO PRAENESTINO, libro degli “Offertoria totius anni” publicado em Roma em 1593 (IOAN. PETRO ALOYSIO PRAENESTINO, Offertoria totius anni [Romae, Apud Franciscum Coattinum, 1593].

 

*Aluno de Composição no Pontifício Instituto de Musica Sacra (PIMS), em Roma