O Cinema visto pela Teologia (93): “Maestro”

Uma leitura do filme “Maestro*

Por Alexandre Freire Duarte

“Maestro” coloca-nos ante uma questão de raiz: quem é o foco desta obra? Não sei responder a esta questão, mas posso dizer que se trata de um filme ambicioso, sentido, inspirado e irrepreensível na sua ternura e honra. Sendo uma obra romântica e também melodramática, isto era de esperar, mas a enorme figura de Bernstein poderia impedir a ausência de vaidade diretoral na estrutura de uma narrativa que surge como uma soma de situações que formam um poema a amores reais e ilusórios num crescendo emocional.

Cooper (exuberante e narcisista) é impecável, mas é Mulligan (sensata e sofrida) que nos arranha, em especial nos momentos em que contracena com aqueloutro. Momentos em que o “sim” à vida que a sua personagem aceitou dar quebram a crosta envolvente com um rancor, desassossego e padecer tais que nem Snoopy relativiza. Já a confluência da música com os contrastes cinematográficos entre a suavidade e o saturado e a exatidão dos pormenores na passagem ampla e claustrofóbica do tempo é impecável.

Jesus, sabemos, é o verdadeiro Messias, mas inúmeras personagens ao longo da história afirmaram-no ser. E ainda se afirmam. Uns querem redimir o mundo pela liturgia; outros com o misticismo; outros com a política; outros com a ecologia; outros com a poesia; outros com a ciência. Todos acabarão ou alienados ou deprimidos, afogados num afã de grandeza que não nutrirá ninguém se não andar de mãos dadas com a rara humildade amorosa. Aquela humildade sem dualidade agitada entre o esforço desapegado e o sermos “servos inúteis”, vivendo-se na elegância cristã (que é a pura caridade que Jesus põe no nosso mais íntimo apenas para ser oferecida gratuitamente).

Quantas polaridades desajustadas há ao nosso redor que tanto mal fazem a tantos porquanto separam: a verdade da bondade; e o discernimento da ambição de se ser uma “estrela”. E isto, por vezes a um preço em que se chegar a mentir (não só no dizer, mas no ser) mesmo àqueles a quem mais se ama; que leva ao mentir no fazer crer que se pode estar a servir a Deus sem se cuidar mais dos demais do que consigo mesmo (numa negação atroz da dinâmica do amor), fazendo de si uma opacidade à ação da Presença.

A clareza acerca do que é cada ser humano está na sua aceitação de que Jesus veio consumar tudo na dita dinâmica. Eis o que permite esperar uma saída para as situações descritas, pois o desamor não é senão o amor a enganar-se no percurso, dado que esse amor, quando verdadeiro, choca, perturba e faz-nos perder, contra o nosso apetecer, as rédeas de todos os intuitos de controlo da nossa vida. Impede-nos de ser “picles” ao retirar-nos do “vinagre” do “ego” que críamos precisar para saborearmos a vida, em vez de termos uma vida saborosa na nossa doação àqueles que menos veem a esperança.

Como viver com os demais, porventura no matrimónio sacramental ou espiritual, se os sacrifícios, que fazemos para realizarmos o melhor onde as nossas missões nos levam, se tornam ostensivos e decorativos, numa oposição total face a um Jesus que nunca disse “Eu te salvei”, mas “a tua fé te salvou”? Impossível ou, pelo menos, muito complicado e comportando chagas que permanecerão um enigma pois nunca se ligarão a uma autêntica necessidade humana. Assim, não duvidem quando digo que o “eu tenho” nos abismará num crescendo de tristeza enfatuada e, por seu lado, o “tu és” nos elevará e abrirá no amor de Deus como num oceano sem bordas nem leito. Como num olhar sem fundo.

(* EUA; 2023; dirigido por Bradley Cooper; com Carey Mulligan, Bradley Cooper, Matt Bomer, Maya Hawke, Sarah Silverman, Josh Hamilton e Scott Ellis)