“Gentil camponesa”

Por João Alves Dias

“Tu és pura e imaculada/ Cheia de graça e beleza;/ Tu és a flor minha amada,/ És a gentil camponesa.” (António Aleixo)

Lembrei-me do celebrado poeta popular algarvio, ao ler o poema ‘Sou Filha do Sol’ do livro ‘O Postigo do meu Mundo’:

“Sou filha do sol/ E da madrugada,/ Neta da terra,/ E irmã da geada.

Sou prima do vento e da lua,/ Do rigor do tempo,/ Ando descalça na rua.”

A sua autora, Rosária Lança, natural do Torrão, Alcácer do Sal, trabalhadora agrícola, cedo conheceu a dureza dos campos alentejanos que bem retrata no poema ‘Ceifeira’:

“Ceifeira de foice em punho/ Ao romper a madrugada,/ Cantando uma canção,/ Para alimentar a ilusão.

(…) Com suor no rosto a escorrer,/ Espigas no peito a bater,/ Com amor no coração/ Mas a sofrer.

Ceifa o pão que a sustenta/ E que a muitos dá de comer,/ Ceifa, ceifa, linda ceifeira/ Ceifeira linda mulher.”

Por causa da faina agrícola, em criança, fez apenas a 3ª classe, mas “sempre gostou de escrever e, inspirada pelos campos onde trabalhava e por toda a envolvência da sua terra, ia compondo os seus poemas.”

E é esta menina-mulher poeta que, no silêncio dos campos, de foicinha na mão e queimada pelo sol do Alentejo:

  • Canta os tempos da mocidade:

“Por ti plantada,/ Por ti colhida, menina do Campo / Com a saia erguida/ Que aparas a fruta/ Da árvore colhida.

Desces ao vale / E sobes ao monte,/ Sabes bailar/ E bebes na fonte. (…) De passo em passo/ Espalhas formusura/ Carregas no regaço/ A fruta madura.” (Camponesa)

  • Reza as orações da meninice:

“A cruz da vida/ Que vou carregando,/ De madeira polida/ Como luz brilhando./ Um rosário de pedras/  Que vou pisando,/ Quantos pai- nossos/ Eu vou rezando./ Eu vou rezando,/ As Avé-Marias/ Rezo a cantar/ Pedindo à Virgem/ Para me salvar./ À Salvé-Rainha,/ Eu rezo de pé,/ Gemendo e chorando/ Na minha fé”. (Oração)

  • Louva o Criador:

“Com um sopro de Deus,/ O universo se transformou,/ E logo nos campos seus/ A Primavera chegou.

Chega a Primavera/ Começa um novo dia,/ Cobre-se de cores a terra,/ Cantam aves em sintonia.” (Primavera)

  • Ama a sua terra:

“És terra pequenina/ Travessa e ladina/ Tens o rio a teus pés.

Os teus filhos te amam,/ Em alta voz te chamam,/ Falando em bom português. És Torrão com tradição,/ O rio te dá a mão…” (Terra Pequenina)

  • Cultiva a gratidão

“Vai-se embora o Sr. Prior,/ Deixa muitas saudades,/ Desejamos-lhe felicidades.

Veio fazer a despedida/ É Homem de muita coragem,/ Sai de cabeça erguida.” (Versos dedicados ao Senhor Padre Bento)

  • E sonha

“Se eu não fosse humana/ Gostaria de ser uma ave/ Ser livre.

Voar para terras distantes/ Rasgar horizontes,/ Beber em rios/ Riachos e fontes./ Sobrevoar o mar / Pairar, esvoaçar,/ Pousar em todos os pontos.

Pousar no barco do Pescador/ Voar rasteiro como a andorinha,/ Serena como ave de rapina,/ Voar alto como o condor.” (Liberdade)

A terminar, com votos de um Santo Natal e um Ano Bom para todos vós, caros leitores, partilho convosco o seu humor no poema “Nascimento de Jesus”

“Se Jesus nascesse hoje,/ No meio desta evolução/ O seu próprio nascimento/ Sofreria alteração.

Talvez na maternidade/ No meio de lençóis de linho/ Com ar condicionado/ A aquecê-lo devagarinho.

E quando a Virgem Maria,/ Quisesse avisar José,/ Aí, ela precisaria/ De usar um télélé.

Apressada carregaria/ Na tecla que acende a luz, / E depressa ela diria:/ – José, já nasceu Jesus!

Os Pastores, ao saberem,/ Se fariam ao caminho,/ Guiados pelo GPS,/ Que os levaria ao menino.

Os Reis Magos, então,/ Pensariam pelos cotovelos/ E resolveriam trocar,/ Um avião pelos camelos.

A manjedoura, a vaquinha e o burrinho,/ Ficariam fora dos planos,/ Tal como, as Palhinhas e a Estrela,/ Usadas há dois mil anos.”

Uma palavra de agradecimento à gentil camponesa que nos legou este rosário de pérolas, raras, da poesia popular feminina de que, com vénia, me faço eco; e ao Davide Sturla, o meu amigo italiano apaixonado por Torrão, que teve a amabilidade de mo oferecer.