Bispo do Porto: Homilia de Natal

Foto. Rui Saraiva

Ser luz no Senhor

Homilia do Natal do Senhor de 2023

Como sabemos, neste dia de Natal, o nascimento do Senhor é celebrado em três Missas com tonalidades distintas para nos ajudar a ver este grande mistério a partir de outras tantas perspetivas: na Missa da noite ou do galo, apresenta-se-nos o dado histórico; na da aurora, um convite a fazermos como os pastores e irmos adorar o Senhor; e nesta Missa do dia, a contemplarmos a altura e a dignidade a que somos chamados enquanto filhos no Filho de Deus. E lê-se este prólogo do Evangelho de São João, uma das passagens bíblicas teologicamente mais densas e elevadas.

As palavras que predominam são Verbo, carne, luz e trevas. Fala-se de uma obstinação cega da humanidade: que a Luz veio ao que era seu, mas os seus não a reconheceram nem se deixaram iluminar por ela ou que essa “luz brilha nas trevas, mas as trevas não a receberam”. É a acusação sobre o refúgio doentio e mortífero de cada um de nós dentro do invólucro do nosso ser –na tal “carne” ou interioridade sem abertura- que nos torna opacos e não deixa ver a “glória do Senhor”. Nem os irmãos.

De facto, não obstante dois mil anos desta Luz a brilhar, as trevas ainda cobrem muitos corações e vasto mundo: há filhos que matam os pais e pais que matam os filhos; há comércios e indústrias de morte, especialmente com o narcotráfico; há um crescente narcisismo individual sem preocupações com a sorte do irmão; há guerras de destruição avassaladora e total, indignas de quem possui o mínimo de sentimentos humanos; há fome crescente e solidariedade decrescente; há desinteresse pela sorte dos mais fracos e legislação para o senhorio total do poder económico; há destruição da natureza e sentimento de que “quem cá ficar que se arranje”; etc. etc. É o domínio do «homem velho», segundo a Sagrada Escritura, ou a morte instalada na terra.

Mas Deus é paciente, sabe esperar e inverte esta mentalidade. Ao nascer em nossa carne, edifica um novo mundo de vida e futuro. Nascer é sempre uma rutura com a morte e um desafio a ela. Nascer é a instauração da vida onde ela não está. Concretamente, nesta humanidade que não tinha vida, mas ausência dela. Deste modo, Cristo nasce para que eu nasça e toda a humanidade nasça. O nascimento de Jesus requere o meu nascimento: que eu nasça novo e diferente. Ser de vida e não de morte. Ser de amor criador e não de ódios assassinos ou de indiferença que mata pelo desinteresse. Como escrevia Novalis, “uma criança é um amor tornado palpável”. E onde há amor há vida. Sim, Jesus é o amor criador concretizado e operante.

No Natal do Senhor não contemplamos, portanto, apenas a Divindade presente no mundo. Vemos, antes, a humanidade real de Jesus, o seu ser de “verdadeiro homem”. Ao longo de milénios e também no nosso tempo e sempre, a humanidade busca um modelo ou protótipo do homem autêntico, completo, não fraturado, total, afável e dedicado, responsável e realizado. Um padrão do qual todos nós possamos copiar ser e atitudes. Ora, aqui o temos: é Jesus! Jesus é a nossa identidade, a completa beleza de Deus visível ao homem. O Natal não é, portanto, apenas o anúncio de um Deus feito carne humana, mas a afirmação solene de que o nosso ser de corpo e alma se pode tornar como Deus. Como Ele garante: “Àqueles que O receberam e creram no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus”. Jesus, o rosto amoroso de Deus é também o rosto do homem perfeito, do homem «filho no Filho».

É neste homem novo que se cumpre o plano de Deus para o mundo. O amor dos esposos, a dedicação aos velhinhos e aos frágeis, a generosidade do perdão, a força dos pacificadores e obreiros da paz, a heroicidade dos que entregam a vida a uma boa causa não obstante a hipercrítica social, a solidariedade sem fronteiras, a persistência dos convictos do bem, a visão poética dos que recusam a pura materialidade, a ousadia dos verdadeiros mestres, etc., todos eles exprimem, a seu modo, esta parecença com Jesus no seu ser de amor e solidariedade, fé e presença, dom e liberdade. E tudo isto gera a alegria, tão típica do Natal e que constitui o alicerce do nosso plano pastoral.

Sim, há motivos para a alegria. Se a luz se tem de confrontar com o poder das trevas, estas jamais a venceram ou vencerão. Verdadeiramente, a luz resplandece nas trevas. E nisto consiste a vocação cristã: ser luz no Senhor, caminhar na luz e comportar-se como filho da luz.

Irmãs e irmãos, feliz Natal no rosto que revela o homem ao próprio homem. Santa alegria n’Aquele que é o protótipo do homem novo, no “Verbo que fez-Se carne e habitou entre nós” para que nós víssemos “a sua glória, glória que Lhe vem do Pai como Filho Unigénito, cheio de graça e de verdade”.

+ Manuel Linda