As esperanças do Natal que vem

Por M. Correia Fernandes

O tempo de Natal, incluindo já o tempo de Advento que vai passando, é veículo de um grande universo de sugestões e de esperanças, A busca do Jesus histórico passa pelo anúncio, pelo nascimento, pela evangelização da palavra, pela sua morte e ressurreição, e pelo seu testamento: “Ide, ensinai, batizai, eu estou convosco até ao fim dos tempos”.

É simbólico como Jesus ao despedir-se fala aos discípulos do fim dos tempos: não apenas dos dias ou anos que se seguirão, mas do fim dos tempos. O que será este fim dos tempos? Os tempos humanos, os tempos da história, os tempos da salvação. Não sabemos se os discípulos compreenderam naquela circunstância o sentido deste fim dos tempos. Mas compreenderam certamente o universo das tarefas que tinham de empreender para edificar o fim dos tempos.

As sensações do fim dos tempos marcam-nos através dos séculos e marcam-nos especialmente nos dias de hoje. O que será o fim dos tempos para os povos que sofrem a violência da guerra, como na Ucrânia ou em Gaza? O que será o fim dos tempos para as militares que lançam bombas de destruição sobre os semelhantes, sobre as suas famílias e comunidades? Vivemos sem dúvida tempos de contradição.

Durante a história humana, quantos também viveram a mesma contradição. O que é falar de paz e proclamar a alegria do Senhor que vem, quando o que vem são as maldades, as ambições e os poderes humanos? Como podemos discernir a ação dos homens nos projetos de salvação?

E no entanto a mensagem de paz permanece viva. Falar de Jesus histórico, anunciado, nascido, inserido na tradição bíblica de David, reconhecido como filho de David para ter piedade. Este Jesus nascido criança nestes dias de Natal, vamos senti-lo a anunciar o Reino de Deus como membro do povo de Israel, superando os dramas e convicções dos responsáveis do povo, e transmitindo-lhes uma dimensão nova da sua fé em Javé.

A sociedade de hoje continua a não encontrar resposta para a pergunta que o próprio Jesus dirigiu aos seus discípulos: Vós quem dizeis que eu u? Aceitou a resposta de que obteve “Tu és o Messias, o Filho de Deus!”, não comentou, deixou que eles continuassem a procurar para descobrir. Porque a procura é um caminho de descoberta.

O Natal confronta-nos com o Jesus histórico mas ensina-nos a entrevero o Jesus que mexe a nossa história humana. Onde está no meio das guerras o Jesus histórico? Onde está nas mesmas circunstâncias o Filho de Deus que traz a salvação?

Lembra J. Ratzinger que o método para o conhecimento da realidade de Cristo procura conhecer e compreender o acontecimento passado para descobrir o que o autor quis transmitir naquele momento, procurando encontrar os pontos de contacto com o presente e que a explicação do passado pode conter tanto a sua força como o seu limite.

Como havemos de encontrar nos dias de hoje a presença do Menino que nasceu? Ele não nasceu só, foi fruto da história, fruto dom cuidado humano, fruto do crescimento, fruto da consciência que se foi edificando.

É bonito ver como a tradição cristã soube ler os acontecimentos históricos não apenas na sua realidade, na sua poesia, mas igualmente no seu sentido profético. As imagens do presépio não são apenas sensoriais, elas estão imbuídas daquele sentido simbólico que nos ensina a edificar noutro nível o símbolo. Uma das experiências mais tocantes pode ser a de percorrer o universo dos artistas que procuraram mostrar Jesus no seu mistério humano. (Ver Jesus de Nazaré, A esfera dos livros)

Os livros evangélicos não são simples literatura, mas remetem tanto para os agentes pessoais como para o universo comunitário que os acolhe. O Povo de Deus que recebe a mensagem é ao mesmo tempo agente e destinatário da mensagem, porque ela tem um corpo simbólico, que se torna o sujeito vivo da escritura.

Tudo isto se aplica ao sentido simbólico do Natal: ele continua a ser um mundo novo no coração atento ou distraído ou da humanidade. Como saberemos descobrir isso?

Jesus nasceu, Feliz Natal!