Natal e Eucaristia

Foto: Vatican Media

Por Secretariado Diocesano da Liturgia

Desde o século IV que sempre comparecem nas representações da natividade, dois animais pacíficos e laboriosos: o boi e o jumento…

Devemos superar a leitura infantil, afetiva e sentimental, segundo a qual os animais estariam a «aquecer o Menino» com o calor da sua respiração. Não era essa a compreensão das primeiras gerações cristãs que nunca representavam o Menino seminu, mas sempre cuidadosamente enfaixado com ligaduras. Na época medieval ainda foi assim que Giotto pintou o Menino nos célebres frescos de Assis.

Numa leitura simbólica desta representação da natividade, que fazem estes animais junto da manjedoura do Verbo incarnado?

Duas coisas, principalmente:

cumprem a profecia de Is 1, 3: «O boi conhece o seu dono, e o jumento, o estábulo do seu senhor». Representam, portanto os crentes que acolhem na fé o Verbo feito carne. O boi, animal puro, habituado ao jugo, representa o novo Povo de Deus constituído, em parte, por crentes originários do judaísmo e habituados ao «jugo da lei»; o burro, animal impuro e destituído da sabedoria que vem do conhecimento e cumprimento da Lei, representa os  crentes provenientes do paganismo. Em conjunto, os dois simpáticos animais, representam a universalidade da Igreja que reconhece e adora o seu Senhor.

alimentam-se na manjedoura, o lugar onde se serve o alimento ao gado e por isso, muitas representações colocam-nos o mais próximo possível do Menino. Na medida em que simbolizam os crentes, o boi e o jumento não se alimentam de feno, mas sim do Verbo feito Carne que Maria deitou no presépio e que a Virgem-Mãe Igreja continua a servir aos fiéis no altar da Eucaristia. Esta leitura eucarística é confirmada por representações do século IV-V em que a manjedoura, colocada, por vezes sob um alpendre a evocar um baldaquino, tem a forma de um altar semelhante aos das primeiras basílicas. E, por vezes, os animais aparecem mesmo a alimentar-se, numa alusão inequívoca à comunhão eucarística. Cumpre-se, assim, o sentido do nome da cidade de Belém: «casa do pão» (Beit Lehem).

Há, portanto, dois modos de representar o mistério: o sacramental, que mediante a anamnese litúrgica nos dá a presença do Verbo incarnado na mesa/altar da Eucaristia, em ordem à comunhão/manducação dos fiéis; e o modo figurativo/narrativo que recorre à cena do presépio não apenas para evocar o acontecimento histórico (mediante as imagens da Sagrada Família), mas também para significar, com a presença imprescindível do boi e do jumento, a participação atual dos crentes nesse acontecimento salvífico.

O Natal de Greccio, a grande iniciativa de São Francisco de Assis em 1232, coloca-se de algum modo numa posição de síntese. De facto, como já se referiu neste espaço e consta do relato mais antigo do acontecimento (CELANO), não havia figurantes. Lá estava, na gruta, a manjedoura com a presença dos dois animais da profecia. Mas não foi disposta a imagem do Menino, embora um dos presentes tenha tido a visão da sua presença. Determinante foi a celebração da Eucaristia num altar disposto junto da manjedoura: é a perspetiva sacramental.

Também hoje a tradição figurativa do presépio é uma proposta a revigorar: os «pequeninos» e simples carecem do relato do grande acontecimento, precisam de ver a cena. A maravilha deve ser contemplada. Mas a melhor forma de viver o Natal do Senhor é celebrar a Eucaristia e participar nela pela Comunhão. Reconhecemos assim a manjedoura do nosso Senhor. E «àqueles que O receberam e acredita­ram no seu nome, o Verbo deu o poder de se tornarem filhos de Deus». Aproximemo-nos da Manjedoura da Igreja, que é o Altar da Eucaristia, reconhecendo e acolhendo o Verbo que se fez carne, que se fez pão da nossa fome.