“Da História da Música para a Liturgia”: Domingo III do Advento

Foto: João Lopes Cardoso

Padre Bruno Ferreira*

O terceiro domingo do Advento é conhecido como domingo “Gaudete“, que é a primeira palavra do texto do Introito (o primeiro dos elementos do Proprium Missae), mas que resume também o espírito deste momento particular do caminho litúrgico. Com a aproximação da festa do Natal, este domingo já deixa antever a alegria que invadirá o mundo com a chegada do Messias e, também do ponto de vista musical, era costume em muitas realidades religiosas que a proibição de tocar música instrumental no Advento fosse atenuada por ocasião deste domingo.

De Wert: Gaudete in Domino, IGW 21

Latim:

 

Gaudete in Domino sempre,

Iterum dico, gaudete.

 

[Filipenses 4, 4]

 

Tradução portugesa:

 

Alegrai-vos sem no Senhor!

Novamente vos digo: Alegrai-vos!

 Nesta semana decidi propor aos nossos leitores uma versão musical do célebre Introito que dá nome a este terceiro domingo de Advento; entre as muitas possibilidades, escolhi o breve motete para 5 vozes mistas composto pelo flamengo Giaches de Wert (1535-1596), célebre pelo seu trabalho na corte mantuana da família Gonzaga durante muitos anos.

O texto do Introito é extraído de um fragmento da carta de São Paulo aos Filipenses (Fil 4,4): “Alegrai-vos sempre no Senhor: repito-vos, alegrai-vos! Este motete Gaudete in  Domino (do 2º livro de motetes de 1581) (), as várias palavras do texto paulino são sublinhadas com nuances diferentes e refinadas. O primeiro “gaudete” é apresentado como um grande número de escalas ascendentes, que dão um grande impulso e abertura à composição; a palavra “semper” é, pelo contrário, prolongada, quase como se seguisse a ideia de eternidade; a palavra “dico” é proposta como um ritmo incisivo que parece seguir as palavras ditas em vez de cantadas. Mas é sobretudo o último “gaudete” que se destaca: aqui, a fantasia do compositor imagina uma espécie de “risada musical” que as várias vozes transmitem umas às outras, numa atmosfera que parece incluir alegria e felicidade.

Inglês:

 

Rejoice in the Lord alway:

and again I say, Rejoice.
Let your moderation be known unto all men. The Lord is at hand.
Be careful for nothing;
but in evrything by prayer and supplication with thanksgiving
let your requests be made known unto God.

 

[Filipenses 4, 4-7]

 

Tradução portuguesa:

 

Alegrai-vos sempre no Senhor:

e outra vez digo: Alegrai-vos.

Seja a vossa moderação conhecida de todos os homens. O Senhor está próximo.

Não vos preocupeis com nada;

mas em tudo, pela oração e

súplica com ação de graças

sejam os vossos pedidos conhecidos

diante de Deus.

 

Purcell: Rejoice in the Lord, Z 49

O tema da alegria está também presente em Rejoice in the Lord, do compositor inglês Henry Purcell (1659-1695), cujo texto é uma tradução inglesa da mesma citação bíblica em que se baseia o Introito de Giaches de Wert.

A composição de Purcell () é um hino em verso e foi originalmente escrito para coro SATB, contratenor, tenor e baixo solistas e cordas, embora às vezes também seja executado com o órgão substituindo as cordas. Este é um dos seus hinos mais famosos, conhecido no mundo anglo-saxónico como o “Bell Anthem”, devido às alusões do toque dos sinos que pontuam a partitura. A peça começa com uma longa introdução instrumental baseada, mais uma vez, em escalas – seja ascendentes como descendentes – em que os violinos e o baixo contínuo parecem unir-se, quase como se fossem os passos alegres e cheios de antecipação com que os crentes se aproximam da gruta de Belém.

Com a entrada das vozes, os “passos” se interrompem, enquanto o ritmo assume um andamento de dança, cheio de leveza e de antecipação por uma alegria que se torna realmente festa. Mais uma vez, um longo interlúdio instrumental parece alargar a dimensão dançante e transportar o ouvinte para um plano de felicidade. O texto paulino vem então citado por Purcell num fragmento mais longo do que o Introito católico, com uma secção mais composta e absorvida. Em contrapartida, o retorno do texto “rejoice” joga ainda mais do que antes com a reiteração do convite à alegria: as palavras “and again” (“e outra vez”) são repetidas com um gosto quase infantil.

Segue-se uma secção em que o ouvinte é convidado a não entrar em angústia com alguma coisa e a depositar a sua confiança em Deus, cuja paz “ultrapassa todo o conhecimento”. Esta secção, a mais intensa da peça, é cantada “a cappella” (sem instrumentos) pelos cantores, introduzida por uma parte bastante longa do baixo solo. Aqui, de facto, Purcell tenta dar uma antevisão da “paz de Cristo” como uma experiência interior e iluminadora. O sucessivo interlúdio instrumental é, de facto, pleno de contemplação e concentração. Mais surpreendente ainda, após este momento de seriedade, é o regresso do convite à “alegria”, primeiro formulado de forma mais moderada, e depois retomado pelo coro completo.

* Aluno de Composição no Pontifício Instituto de Musica Sacra (PIMS), em Roma