Um bilhete para Maria de Lourdes Belchior (1923-1998)

Por Jorge Teixeira da Cunha

Entre as pessoas cujo centenário de nascimento se celebrou este ano, conta-se a Prof. Maria de Lourdes Belchior Pontes. A sua memória merece uma palavra de reconhecimento pela forma como viveu a sua fé cristã na docência, na diplomacia cultural e, ocasionalmente, no desempenho de cargo de Secretária de Estado da Cultura, no primeiro governo que se seguiu à Revolução de Abril de 1974. Um pouco antes, tinha sido responsável pela criação do Departamento de Filologia Românica da nova Faculdade de Letras da Universidade do Porto. A sua pertença ao Movimento Graal e a sua formação teológica no Instituto Católico de Paris deram uma notável consistência à sua fé, à sua militância e à sua obra humanista e literária.

A formação universitária de Maria de Lourdes Belchior passou pelo estudo da mística portuguesa de Frei Agostinho da Cruz, de Frei António das Chagas e da literatura barroca de Rodrigues Lobo, entre outros. E foi a partir desse património que pensou a cultura portuguesa, propondo um caminho que ficou a dar frutos até aos nossos dias. Com efeito, na sua passagem pela Universidade do Porto, chamou um conjunto de colaboradores que deram um grande contributo ao conhecimento dessa tradição portuguesa antiga. Entre as pessoas que agregou a esta linha de investigação, é justo lembrar a figura de José Adriano de Carvalho, e do numeroso grupo que tem mantido viva a revista “Via Spiritus”. Nunca será exagerada expressão da gratidão da Igreja a esse grupo de fiéis leigos que desenvolve um generoso trabalho intelectual no contexto universitário português.

Outro aspecto deve, a nosso ver, ser posto em evidência que foi o testemunho de Maria de Lourdes Belchior na promoção da dignidade feminina e em geral do papel da mulher na vida pública. Em reconhecimento desse lugar, o Papa João Paulo II nomeou-a membro do Conselho Pontifício da Cultura. Como sabemos, a promoção da mulher, que está no centro do Evangelho, tem demorado o seu tempo a tomar corpo, para lá das reivindicações de género, cujo fundamento teológico ainda está a dar os primeiros passos. É geralmente reconhecido que esta grande senhora da cultura portuguesa nunca deixou de agir movida pela sua convicção cristã, sendo-lhe creditados gestos de grande elevação moral, como aquele em que renunciou a apresentar-se a um concurso académico para que o seu colega e amigo Lindley Sintra pudesse obter o lugar.

Maria de Lourdes Belchior publicou dois livros de poemas. Uma “Gramática do mundo” (1985) e um “Cancioneiro para Nossa Senhora”, no Ano Mariano de 1988. É uma poesia em que transparece a sua formação clássica, o seu conhecimento da essência do cristianismo e a sua fé singela e despretensiosa. Alguém disse que se tratava de “uma poesia coloquial”. A nossa ver, nela transparece uma sábia simplicidade. Neste tempo de Natal vale a pena voltar a alguns versos em que se nota uma profunda sintonia entre a alma lírica portuguesa e a expressão da fé dos simples. Vamos transcrever este poema “A Nossa Senhora”: “O Cristovam de Pavia/trazia flores e ficava, em silêncio, /a contemplar-te. //Também te trago flores, às braçadas, /rosas bravas, brancas, encarnadas, papoilas, /malmequeres, lírios silvestres e junquilhos;/ também prego os olhos no teu rosto/e, posto o meu cuidar em tuas mãos, /abismado o pensamento no teu ser, entrego-te o coração e abandono-me.//Trago-te, Mãe, flores às braçadas, e fico em silêncio a contemplar-te”.

Desejando que a nossa fé continue a despertar pessoas capazes de produzir autêntica cultura, lúcida e corajosa militância por altos valores, aqui ficam os votos de Santo Natal.