60º aniversário de Sacrosanctum Concilium (2)

Foto: Rui Saraiva

Por Secretariado Diocesano da Liturgia

A quase unanimidade dos Padres Conciliares na aprovação da Constituição sobre a Sagrada Liturgia é muito significativa. Repare-se que, na sua esmagadora maioria, eram Bispos educados na prática do Rito Romano, que celebravam quotidianamente conforme os livros litúrgicos resultantes da reforma decretada pelo Concílio de Trento (1563) e promulgada pelos Papas que se lhe seguiram, zelosamente tutelados pela Sagrada Congregação dos Ritos com rubricas e decretos minuciosos. Contudo, quase todos concordavam em que era necessária uma reforma geral e profunda da forma então vigente do Rito Romano, dessa forma que alguns, agora, não já por nostalgia mas por ideologia, pretendem retomar, fazendo tábua rasa de um Concílio Ecuménico.

E não julguemos que a unanimidade era a regra das votações conciliares. Podemos recordar o que se passou com o esquema de Constituição dogmática sobre as fontes da Revelação reprovado em 20 de novembro de 1962 por 1368 Padres em 2209 votantes…

No caso da Liturgia o consenso explica-se não só pela qualidade do esquema elaborado pela Comissão Preparatória, mas, sobretudo, porque em toda a Igreja se sentia a urgência de enfrentar o grave problema eclesial sobre o qual se debatia o movimento litúrgico já desde o século XIX, mas, sobretudo, a partir da sua emergência pastoral com Lambert Beauduin (monge beneditino belga, inspirador e formador do «nosso» D. António Coelho) que, em 1909, assume como mote o apelo de São Pio X à participação dos fiéis na liturgia considerada pelo mesmo Pontífice como primeira e indispensável fonte do autêntico espírito cristão.

De facto, a situação era preocupante. Para ficarmos por Portugal, podemos lembrar o prefácio que em 16 de setembro de 1917 o arcebispo de Mitilene (João Evangelista Lima Vidal, futuro primeiro bispo de Vila Real e de Aveiro), redigiu para apresentar  a obra de Eduardo C. Ferreira, O santo Sacrifício. Escrevia, então:

«O quadro que apresenta aos nossos olhos um grande número das nos­sas igrejas, mesmo à Missa dos domingos e dias de preceito, não pode deixar de causar uma fortíssima desconsolação. Os templos são muito grandes para o pequeno número de fiéis que assistem ao Santo Sacrifício da Missa; e mesmo, ao que parece, a maioria dos presentes cumpre por assim dizer um dever maquinal: está ali, na igreja, em pé ou de joelhos, durante aqueles longos vinte e cinco ou trinta minutos, ou, quando muito, se quer empregar em qualquer coisa o seu tempo, tira umas contas do bolso e reza o terço ou abre um devocionário qualquer e lê com mais ou menos devoção ou enfado umas poucas de páginas.

Entretanto o que se passou no altar? Não se sabe bem: um padre saiu da sacristia com umas certas vestes, trazendo nas mãos um cálix coberto com um véu, subiu ao altar, leu latim num grosso livro, andou de um lado para o outro, voltou-se umas poucas de vezes para dizer umas palavras esquisitas ao povo, e no fim de tudo ajoelhou, rezou qualquer coisa e tornou para a sacristia com aqueles mesmos passos graves, solenes e recolhidos com que saíra. Mal passavam três ou quatro minutos depois da saída do padre, e a igreja ficava sem ninguém, imersa no silêncio, na solidão e na tristeza.

Quer dizer: não se estabeleceu a menor comunicação religiosa, uma comunicação que verda­dei­ra­mente se sentisse, entre o celebrante e os assistentes; estes não compre­ende­ram nada, absolutamente nada, do acto sublime que se desenrolou aos seus olhos; assis­tiram apenas materialmente ao Santo Sacrifício dos nossos altares, não tomaram a mínima parte nele, estiveram ali, para quê? dir-se-ia quase unicamente para poderem dizer no fim sem faltarem muito à verdade: “Fui à Missa”! Assim não é para admirar que as nossas igrejas e capelas se tornem dia a dia menos frequentadas e animadas. Ouvir dessa maneira a Santa Missa assemelha-se a ouvir uma página de uma língua estrangeira e desconhecida, sem se perceber uma palavra daquilo que se ouve, não atingindo o sentido de uma única acção a que materialmente se assiste. […] Que fazer para dar remédio a um mal tão fundo?».

A citação foi extensa, mas a verdade é que nela se formula com clareza e objetividade a grande questão a que o Concílio viria a dar resposta meio século depois. A Igreja não quer que os fiéis sejam espectadores alheios e mudos das celebrações litúrgicas (Pio XI, Const. Ap. Divini cultus de 20 de dez. 1928, citado em SC 48). Por isso, depois de múltiplas iniciativas com o intuito de levar e elevar o povo à liturgia, a Igreja sentiu a necessidade de também levar a liturgia ao povo por meio de indispensáveis reformas, cada vez mais profundas e abrangentes. Foi esse o caminho que começou a ser percorrido, de forma decidida, por Pio XII. Quando João XXIII convocou o Concílio, os bispos, superiores gerais e universidades do mundo católico foram convidados a indicar os temas a abordar: 30% das inumeráveis sugestões apresentadas incidiam sobre assuntos de liturgia. Assim se compreende que a SC, primeiro e tão ansiado fruto desse Concílio, tenha sido recebida como uma grande graça para a Igreja e para a sua vida e missão.