O Cinema visto pela Teologia (91): “Napoleão”

Uma leitura do filme “Napoleão

Por Alexandre Freire Duarte

Se “Napoleão” fosse um jogo de rugby diria que o resultado fora Ridley Scott 73 – Napoleão 3. À frente vai um homem, só e sendo apenas um homem: ferido, complexado, atraiçoado, enamorado, patético, genial militarmente e megalomaníaco. E isto, num emocionante filme bélico à escala clássica, mas, apesar do seu deliberado humor, sem cordas bem orquestradas para se compreender a psicologia de tal homem manipulador e manipulado pela mulher a quem amou. Assim, e também por não se dar a devida atenção à geopolítica envolvente, acaba-se o filme satisfeito, mas com uma questão: porquê?

A fotografia é genial, seja nos interiores, seja nos exteriores; percebe-se, pela técnica da direção e da edição, o que se passa nas confusas e violentas batalhas; as roupas e os adereços são impecáveis (fazendo isto tudo com que a linguagem visual seja eficiente) mas é a felina e ardilosa Kirby; o vigoroso e relaxado Phoenix; e o espirituoso e inteligente Everett que instilam vida a esta obra que não se reduz a uma biografia.

Teologicamente apraz-me começar esta parte deste texto com mais uma pergunta: quantos milhões de pessoas foram mortas devido à ação de déspotas políticos e religiosos depravados e patológicos que alcançaram o poder com, ou sem, a (in)voluntária anuência de tantos? O que há em nós para que assim seja? Para estimarmos, defendermos e até idolatrizarmos serpentes com caudas de pavão? Os nossos “egos” repulsam-se, mas atraem-se contra a dinâmica do espírito, se não ouvirmos a esperança da alegria do amor.

Fala-se muito de bullying escolar, mas o bullying não ocorre só nas escolas. É uma constante da vida, certamente com outras máscaras – a hipocrisia dos impostos, o ardil da corrupção, os “cânticos de sereias” de intrujões que arrastam turbas feitas vítimas, os subornos que elevam aos píncaros os piores e moem os demais, os genocidas que mandam para a tumba gerações enquanto assobiam para o lado. Como tudo seria diferente se: todos nós olhássemos os demais; as nossas palavras se tornassem silêncio de serviço; e a nossa eventual autoridade ajudasse a construir as suas vidas sobre a Rocha.

Mas isto raramente acontece. Pior: quando tais serpentes-pavões satiristas e exploradoras tudo pensam dominar, afinal não sabem o que fazer, só tentando impedir (a)tematicamente os demais de verem o verdadeiro sublime do Amor que Deus é (de novo calcado nesse processo, pois empático com as nossa vidas). Em consequência disto, já de si gravíssimo, tais balões progressivamente esvaziados (nem que aquando da morte biológica) arrastam os que estão sob eles para a voragem do desalinho que os afasta da espiritualidade do local comum; que os afasta da sacramentalidade da existência comum.

Coloquemo-nos, com Cristo-Centro, no centro – único local onde podemos ver a todos que nos circundam – e reconheçamos que não “ganhamos” a Deus, mas tão-somente O podemos receber. Assim, não duvidaremos a Quem devemos seguir: Jesus pobre, humilde e diacónico. Muitos podem não O (querer) conhecer ou estimar, devido ao que parece ser a Sua insignificância. Mas o que parece ser isto, não é senão a força do Seu amor, que, nos afiançando que Ele nos estima e conhece, apenas espera que nos abraçamos ao que é essencial: a espiritualidade madura que tem o Seu modelo na d’Ele, abrindo, no amor, uma vida na Cruz e no Sepulcro vazio pelas cruzes e sepulcros diários.

(Reino Unido, EUA; 2023; dirigido por Ridley Scott; com Joaquin Phoenix, Vanessa Kirby, Rupert Everett, Mark Bonnar e Tahar Rahim)