60º aniversário de Sacrosanctum Concilium

Foto: Rui Saraiva

Por Secretariado Diocesano da Liturgia

No passado dia 4 de dezembro ocorreu o 60º aniversário da aprovação final e promulgação do primeiro fruto dos trabalhos do II Concílio do Vaticano, convocado por São João XXIII para «fomentar cada vez mais a vida cristã entre os fiéis, adaptar melhor às necessidades do nosso tempo as instituições sujeitas a mudanças, promover tudo o que possa ajudar à união de todos os crentes em Cristo e fortalecer tudo o que pode contribuir para chamar a todos ao seio da Igreja» (SC1).

Os documentos do II Concílio do Vaticano não foram obra de teóricos sentados à secretária em gabinetes de estudo ou de académicos nas suas cátedras universitárias, executando de forma meticulosa um programa lógico e sistemático. Nada disso: o Concílio foi acontecimento de história viva, diálogo de liberdades em que a surpresa e o imponderável estiveram na ordem do dia. Numa palavra, foi acontecimento do Espírito. Do Espírito que no Pentecostes se manifestou como vento impetuoso e fogo ardente.

Se os trabalhos conciliares tivessem decorrido segundo um critério programático, o primeiro texto a ser discutido e aprovado teria sido, sem dúvida, o da Constituição sobre a Revelação divina, Dei Verbum (que, pelo contrário, só foi aprovado em 18 de novembro de 1965, no final do último período do Concílio); ter-se-ia seguido, porventura, a Constituição sobre a Igreja, Lumen Gentium (efetivamente promulgada apenas em 21 de novembro de 1964). Só depois faria sentido inserir na agenda dos debates o projeto de uma Constituição ou Decreto sobre a Sagrada Liturgia. No plano das hipóteses futuríveis, o debate sobre a Liturgia só teria a ganhar se pudesse pressupor como adquiridas as notáveis conquistas dessas duas constituições dogmáticas. Mas na realidade objetiva dos factos a precedência coube, surpreenden­temente, à Liturgia. E foi a debater o esquema preparatório da Constituição sobre a Liturgia que os Padres Conciliares «aprenderam» um novo estilo de magistério, de clara inspiração bíblica e patrística, articulado segundo a história da salvação e, nesta, centrado no mistério de Cristo e na sua Páscoa de salvação, da qual nasce a Igreja. Efetivamente, olhando para os esquemas preparatórios destas duas constituições conciliares, forçoso é concluir que a Dei Verbum e a Lumen Gentium não seriam o que são se não as tivesse precedido SC.

A história desta imprevista mas providencial precedência está documentada: no Verão de 1962, quando já preparavam as malas, os Bispos de todo o mundo receberam um volume com 7 esquemas de constituições e decretos a tratar nas sessões do Concílio prestes a começar: uma primeira amostra do muito que nas Comissões Preparatórias, sob a tutela dos Dicastérios da Cúria Romana, se tinha preparado para os Padres Conciliares aprovarem de rajada, como se supunha, segundo o precedente do Sínodo Diocesano de Roma que tudo decidira numa semana (24-31 de janeiro de 1960). Nesse volume, o esquema dedicado à Liturgia aparecia em 5º lugar. Aconteceu, porém, que o Episcopado mundial, convocado para o Concílio, reagiu bastante mal à amostra. Na verdade, os vários esquemas propostos não correspondiam ao desígnio de um «Concílio Pastoral», anunciado por João XXIII. Esse mal estar foi dado a conhecer ao Papa. E foi assim que, na 2ª Congregação Geral, reunida em São Pedro, no dia 16 de Outubro de 1962, foi comunicado aos Padres que o primeiro esquema a entrar na ordem do dia seria o dedicado à Liturgia.

A história regista que o esquema de Constituição sobre Liturgia foi o único, de todos os elaborados pelas Comissões Preparatórias, a recolher o consenso dos Padres. A votação final teve lugar no dia 22 de novembro de 1963: de 2178 Padres Conciliares, 2158 votaram a favor, 19 contra e houve 1 voto nulo. Nesse dia ocorria o 60º aniversário do motu proprio Tra le sollecitudini” com que o Papa São Pio X lançara o movimento litúrgico declarando que a participação na Sagrada Liturgia é a primeira e indispensável fonte onde os fiéis podem beber o genuíno espírito cristão. A constituição era o fruto maduro e apetecido desse movimento renovador. A promulgação aconteceu em 4 de dezembro de 1963. Nesse dia os votos contra foram apenas 4 (2147 a favor). Assinalava-se o 4º centenário do encerramento do Concílio de Trento (4/12/1563). Era o começar de uma nova época na história da Igreja.