“Da História da Música para a Liturgia”: Domingo I do Advento

Foto: João Lopes Cardoso

Por padre Bruno Ferreira*

No início do ano litúrgico, o Advento é um tempo, sim, de penitência e de preparação, mas também – talvez sobretudo – de alegre esperança pela vinda do Salvador na Festa do Natal. Ainda que o carácter penitencial do Advento tenha por vezes exigido a renúncia ao uso da música acompanhada de instrumentos, a beleza particular das leituras e a abundância de tradições devocionais e paralitúrgicas que se desenvolveram em todo o mundo cristão fizeram deste tempo um dos mais fascinantes, não só do ponto de vista litúrgico, mas também do ponto de vista simplesmente artístico e musical.

O Ofertório do primeiro domingo do Advento, Ad te, Domine, levavi, tem um texto tirado dos dois primeiros versículos do Salmo 25; as palavras do Salmo exprimem muito bem a tensão, o desejo e a expetativa que animam o crente pela celebração do Tempo do Advento, pelo novo ano litúrgico e pela expetativa do Senhor que vem.

Fux: Ad te, Domine, levavi, K 153

Latim:

 

Ad te, Domine, levavi animam meam,

Deus meus, in te confido,

non erubescam,

necque irrideant me inimici mei;

et enim universi, qui te expectant,

non confundentur.

 

[Salmo 25, 1-2a]

 

Tradução portugesa:

 

A Ti, Senhor, elevo a minha alma.

Meu Deus, em Ti confio,

 que eu não seja  confundido,

nem se riam de mim os meus inimigos, pois não serão confundidos todos os que em ti esperam.

 

[Salmo 25, 1-2a]

 

 Entre os músicos que revestiram de notas musicais estas palavras está Johann Joseph Fux (1660-1741), um músico contemporâneo de Johann Sebastian Bach (1685-1750), mas hoje, infelizmente, quase esquecido. Austríaco, Fux é particularmente célebre entre os músicos como autor de um Gradus ad Parnassum, um tratado sobre a técnica do contraponto, no qual se formaram todos os grandes compositores da época clássica e romântica.

De facto, o livro de Fux ensinava a compor no chamado “stile antico”, aquele que se identificava com a música do século XVI de Giovanni Pierluigi da Palestrina (1515-1594), e que também se tornou gradualmente um símbolo musical da própria liturgia. O difícil mas fascinante estilo do contraponto de Palestrina tornou-se assim um critério artístico para a mestria do músico, mas também uma espécie de adesão, pelo menos estética, aos cânones da beleza sacra.

A arte de Fux é belamente observada no seu Ad te, Domine, levavi (para coro SATB) (https://spoti.fi/3qnNw6I) no qual encontramos verdadeiramente a escrita suave e envolvente dos mestres renascentistas, embora talvez aqui permeada por uma expressividade e humanidade que são influenciadas pela arte barroca dos “afectos, o chamado Empfindsamkeit ou Empfindsamer Stil (“sentimentalismo” ou “estilo sensível”). Em particular, a nostalgia e as aspirações da alma, a que o texto se refere, são expressas com grande eficácia por Fux no jogo de tensões e distensões com que ele imbui a sua magistral polifonia.

M. Haydn: Universi qui te expectant, MH 442

 

Latim:

 

Universi qui te expectant,

non confundentur, Domine.

Vias tuas, Domine, notas fac mihi,

et semitas tuas edoce me. Alleluja.

 

[Salmo 25, 3-4]
Tradução portuguesa:

 

Todos os que em ti esperam,

não serão confundidos, Senhor.

Mostra-me, Senhor, os teus caminhos,

e ensina-me as tuas veredas, aleluia.

 

[Salmo 25, 3-4]

 

Johann Michael Haydn (1737-1806) é também uma figura um pouco negligenciada nos programas de concerto, e que merece ser devidamente apreciada. No seu caso, talvez a comparação com a grande figura do seu irmão mais famoso, Franz Joseph, não tenha ajudado a tornar as composições de Michael conhecidas e admiradas pela sua beleza única. Este último estava também ligado a outra família famosa de músicos, os Mozart: tal como eles, viveu em Salzburgo (Áustria) e serviu a arquidiocese local como mestre capela.

O seu Universi, qui te expectant (para coro SATB, cordas, trompas e contínuo/órgão) (https://www.youtube.com/watch?v=fuosM9W2Z6A) foi composto em 1787 como Graduale para o Primeiro Domingo do Advento; o texto é também retirado do Salmo 25 e sublinha a dimensão da espera. O compositor consegue de forma verdadeiramente notável conciliar as exigências da liturgia – em particular o desejo de tornar o texto cantado bem compreendido e percebido – com a ajuda da arte musical: as vozes, de facto, cantam quase sempre em “homorritmia”, isto é, com o mesmo ritmo, o que agiliza muito a clareza da declamação; a vivacidade é proporcionada pelo acompanhamento instrumental, em que o baixo procede de uma forma típica da época barroca e evoca os “passos” (talvez a sugerir o avizinhar-se dos fiéis ao Natal?), enquanto as trompas e os violinos enquadram graciosa e alegremente o canto. Se, portanto, Fux privilegiou a atmosfera emocional da expectativa intensa, Michael Haydn optou antes por dar voz à componente alegre e luminosa da chegada do Messias.

*Aluno de Composição no Pontifício Instituto de Musica Sacra (PIMS), em Roma