“Da História da Música para a Liturgia”

Por Padre Bruno Ferreira*

A verdadeira sinodalidade eclesial pressupõe a constante necessidade de formação de todos os agentes pastorais, especialmente aqueles que amam, preparam, celebram e vivem a Liturgia, onde o fenómeno musical se apresenta numa estreita correlação com o Mistério Celebrado.

Assim sendo, e juntando-me aos demais colaboradores da Voz Portucalense, iniciarei, a partir do novo Ano Litúrgico (com o Primeiro Domingo do Advento), uma rúbrica da minha lavra, intitulada “Da História da Música para a Liturgia”, propondo todas as semanas um singelo guia ecuménico de audição de obras musicais ligadas à espiritualidade e teologia cristãs, que possam encontrar enquadramento na liturgia católica nos tempos do ano.

Sobretudo procurarei explorar como os tempos da liturgia cristã se traduzem em…tempo musical; como a articulação do Ano Litúrgico se reflecte na música composta para o celebrar, para contribuir para o seu significado e para a experiência que o crente faz e vive dele.

Com linguagem acessível a todos e sem pretender ser um trabalho musicológico ou teológico de tipo académico, desejo ajudar o leitor a (re)conhecer e a escutar algumas obras primas da tradição cristã, provenientes das diversas tradições musicais, para celebrar o Advento e o Natal, a Quaresma e a Páscoa, as Solenidades e as Festas dos Santos. Um florilégio de artistas, conhecidos e menos conhecidos, que marcaram ao longo dos séculos a celebração dos mistérios da vida cristã.

Procurarei apresentar o maior número possível de compositores, estilos musicais, épocas e origens geográficas, culturais e confessionais, limitando-me quase exclusivamente ao repertório da chamada “música clássica europeia” (em sentido lato, porque também se observará a presença de muitos compositores não europeus, que escreveram, em geral, em linguagens musicais típicas da música “clássica”, embora incluindo elementos de tradições locais). Também esta escolha será propositada, e deve-se essencialmente ao facto de eu conhecer melhor estes repertórios do que outros: o que é um limite meu não deve, portanto, ser considerado como um juízo de valor ou desvalor em relação a outras realidades musicais e espirituais.

Farei também um esboço biográfico muito breve e esquemático de cada compositor, que, por sua vez, será apenas um convite a um estudo mais aprofundado; das peças apresentadas, encontrarão, no texto, uma ligação para execuções livremente acessíveis on-line no YouTube, e também acessíveis através de um código QR; no texto, encontrarão todos os textos na língua original e com tradução portuguesa, quando necessário. Entende-se que, especialmente quando as restrições de espaço me obrigarem a limitar a minha tradução a excertos de composições maiores, o convite ao leitor é que considere a minha apresentação apenas como uma antecipação que convidaria a uma “degustação” mais completa.

Porém, o meu principal objetivo será sempre aquele de ajudar o leitor a apropriar-se do mistério da vida cristã no seu incarnar-se no tempo, graças ao tempo da música, “escrita do tempo” que se torna sintaxe da vida e chave para a sua inteligibilidade; mas não menos importante, será o de encorajar os responsáveis ​​da liturgia (clero e animadores musicais) a perseguir a beleza, o encanto e o cuidado nas celebrações, ousando até propor composições que não são fáceis de executar e ouvir. Assim como não devemos sempre pretender “perceber” ou “compreender” tudo o que diz respeito ao Mistério de Deus (dois verbos que implicam, também etimologicamente, o facto de a nossa mente ser “maior” que Deus e poder “contê-lo”, o que é evidentemente absurdo), da mesma forma, embora numa escala diferente, podemos e devemos admitir no nosso culto elementos que são maiores e mais belos do que a nossa capacidade de abarcá-los completamente, tentando apenas desfrutar desse espaço de mistério que eles abrem para nós e diante de nós.

Em suma, desejo, portanto, que a música de grandes compositores e de grandes crentes, como aqueles que poderão ler ao longo desta rúbrica semanal, se torne um guia e uma ajuda no caminho de fé e de oração, aquecendo os corações e trazendo um pouco de beleza e felicidade na contemplação do Mistério de Deus.

*Aluno de Composição no Pontifício Instituto de Musica Sacra (PIMS), em Roma