“Uns atrás dos outros tombavam os mortos “(XVII, 361)

Por João Alves Dias

“A Guerra aniquiladora de homens” (Ilíada, X,78). Este grito da Humanidade, que nos chega das profundezas do tempo, ecoa, ‘lancinante’, na oração do Papa Francisco: “Senhor, ensina-nos a repudiar a loucura da guerra que semeia a morte.” (VP, 31/10/2023)

A Ilíada, de Homero, “um monumento extraordinário à capacidade humana”, foi escrita – pasme-se – no século VII a.C. E, nela, ecoam tradições orais que podem remontar a mil e quinhentos anos antes de Cristo…

. Mais do que a mitologia grega, cujos deuses – “E riu-se Zeus em seu coração quando viu os deuses a lutar uns contra os outros” (XXI, 390) – nada têm a ver com o Deus de Jesus, gosto de partilhar convosco a ternura de duas cenas familiares:

– “Mãe, já que me deste à luz para uma vida tão curta (…) /Assim falou Aquiles (o herói grego) vertendo lágrimas; e ouvi-o a excelsa mãe (…) Sentou-se à frente do filho enquanto vertia lágrimas e acariciou-o com a mão. Depois falou-lhe pelo nome e disse: /Meu filho, porque choras? Que dor te chegou ao espírito? / Fala, não escondas o pensamento, para que ambos saibamos.” (Canto I, 352)

– “Assim falando, o glorioso Heitor (o herói troiano) foi para abraçar o seu filho, / mas o menino voltou para o regaço da ama / gritando em voz alta, assarapantado pelo aspeto de seu pai (…)  Então se riram o pai amado e a excelsa mãe: / e logo da cabeça tirou o elmo / e depô-lo no chão da casa. / De seguida beijou e abraçou o seu filho amado.” (…)

“Assim dizendo, nos braços da esposa amada pôs o filho. /Ela recebeu-o no colo, sorrindo por entre lágrimas. / Mas ao aperceber-se de como ela reagiu, o marido sentiu pena, /e acariciando-a com a mão, falou-lhe pelo nome: / ‘Mulher maravilhosa, não me entristeças demasiado o coração’. (…)  Sua esposa amada regressou a casa, / voltando-se muitas vezes para trás, em choro abundante “(VI, 466).

E, em vez do “canto bélico” (XX,204) da ‘Guerra de Troia’, onde gregos e troianos “se matavam uns aos outros em renhido combate” e “a terra escorria negra de sangue” (XV, 708), deixo-vos o bucolismo dos ‘similes’ (comparações) que pontuam toda a epopeia.

Tal como os rios invernosos se precipitam das montanhas, / atirando juntos o enorme caudal para a embocadura de dois vales / e das poderosas nascentes vêm lançar as águas num oco desfiladeiro, / e lá longe nas montanhas o pastor chega a ouvir-lhes o estrondo – /assim era o eco e o terror dos que embatiam uns contra os outros “(IV, 453).

Tal como o lavrador trata de uma pujante vergôntea de oliveira / em terreno solitário, onde brota quantidade de água :/ árvore bela e frondosa, à qual fazem estremecer as brisas / de todos os ventos e floresce com flores de cor branca; /mas de repente vem uma rajada de uma desmedida tempestade / e arranca a árvore da terra, deixando-a estatelada no chão – /assim…” (XVII, 53).

Tal como quando da nascente de água escura o jardineiro / desvia a corrente de água para as plantas e canteiros / de enxada na mão, retirando do canal os empecilhos; / à medida que flui todos os seixos são arrastados, / e a água sussurrando segue depressa para baixo, descendo/o terreno inclinado até ultrapassar quem a guia – / assim…”. (XXI, 257).

“Tal como quando na época da ceifa, o Bóreas seca / o pomar há pouco irrigado e alegra-se o cavador /assim ficou seca toda a planície e os mortos foram /queimados; mas depois virou a chama brilhante contra o rio. / Arderam os ulmeiros e os choupos e os tamarinhos ;/ arderam o lódão e os juncais e a junça, que crescia / com abundância à volta das belas correntes do rio. / Muito sofreram as enguias e os peixes nos torvelinhos; / mergulhavam para cá e para lá nas correntes. “ (XXI, 346)

Para um mais completo conhecimento deste poema épico – “o primeiro livro da literatura europeia” – aconselho a sua leitura integral na tradução de Frederico Lourenço cuja “Introdução’ nos ajuda a percorrer um caminho ‘belicoso’ que se alonga por 16.000 versos distribuídos por 24 cantos.

É um encontro com a grandeza e a miséria do Homem de todos os tempos “Um anjo caído / do tal Céu que Deus governa; / um monstro saído / do buraco mais fundo da caverna “(Miguel Torga, Livro das Horas).