O Cinema visto pela Teologia (84): “O Exorcista: Crente”

Uma leitura do filme “O Exorcista: Crente *

Por Alexandre Freire Duarte

Não se pense encontrar neste filme algo com o brilhantismo de “O Exorcista”, saído para os ecrãs há 50 anos. Nada disso. Apesar da grande evolução do cinema em meio-século, estamos ante uma involução desagradável, vazia e que mesmo no âmbito do horror é assaz confusa, pendulando entre uma base interessante, uma trama insípida e dispersa e um final caótico, devido mormente a efeitos desnecessários e a não se ter conhecido as personagens em profundidade. Nada, de facto, da densidade decorrente da experiência de algo que nos assola, apesar de a obra tentar agarrar-se à aura do original.

Os atores estão além de qualquer censura, em especial o impactante Odom que, com a assunção potente da sua complexa e contraditória personagem, apaga o brilho de Burstyn (cruelmente esbanjada, pois tornada quase numa decoração). O’Neill e Jewett também são excelsas e ver a coloração impulsiva da cinematografia a par do ouvir Mike Oldfield são um regalo no meio da galgada de falhados sons queridos horripilantes.

A recorrência de filmes sobre exorcismos é algo sobre o qual a teologia não tem dado a devida atenção. O que buscam as pessoas neles? É difícil de dizer, mas numa época ansiosa e da qual Deus parece estar a abalar da vida de muitos – subterrado, por exemplo, sob a falsa omnipotência da ciência (e em especial de uma psicologia que tudo faz convergir ao que é do seu âmbito) – o querer “crer” no mal é, às vezes, uma forma enviesada de poder, sem receio dos pares, tentar crer no Bem e, quiçá, em Deus.

Um Deus(-Amor) estranhamente tirado de “O Exorcista: Crente”, e, assim, esvaindo este do que de mais intimidante poderia ter: a pugna entre o amor e o desamor: em nós; na sociedade; e nos, por vezes reais, fenómenos de possessão. Isto – juntamente com o caricaturar do catolicismo e da descatolização do filme, em nome de uma caótica e patética ação ecuménica (e não só) – resume tudo à ideia de que o amor solidário e inclusivo é o único exorcista. Isto é quase verdade, mas claudica com a redução, desviante da realidade, fruto de tal único. Quase, porquanto os erros estão nos detalhes.

Protejamos todos do que pode ser uma ofensa consciente a Deus devido, sobretudo, ao levar à perda da inocência dos demais; inocência essa que está numa cruz que muitos ignoram que é o sinal mais eficaz, pela morte e ressurreição do Senhor, do amor de Deus por nós. Esse amor sem o qual tudo parece vazio e absurdo, em vez de poder mostrar-nos que somos criaturas que nascem de Deus por esse mesmo amor que só se dá sem medida.

O tema do filme é, teologicamente falando, demasiado sério para, ao contrário da obra de 1973, ser tratado de um modo quase tão ofensivamente adulterado. Este filme não precisa de ser um documentário (até porque se deve evitar indiscrições doentes), mas devia ter havido uma maior pesquisa prévia sobre o que trataria. Porém, é muito real em alguns aspetos, como o que relata o que pode levar à necessidade, não de um psiquiatra, mas de um exorcista, o qual, na sua prudência, explique quem somos na beleza de Deus.

Todavia, quase tudo se resume a sucessivos (placebos?) de “Kumbaya, Senhor” misturados com os desejos de um definitivo “Hakuna matata” (impossível de ser alcançado nas circunstâncias descritas na trama). Numa palavra: falta teologia séria, consistente e sofisticada a este filme, dando a convicção de que, desde que ele dê bastante dinheiro aos estúdios, todos os seus defeitos ficam eficazmente “exorcizados”.

(* EUA, 2023; dirigido por David Gordon Green; com Leslie Odom Jr., Lidya Jewett, Olivia O’Neill, Jennifer Nettles, Norbert Leo Butz, Ann Dowd e Ellen Burstyn).