Criatividade… ou singularidades banais sempre repetidas?

Foto; Ricardo Perna

Por Secretariado Diocesano da Liturgia

A fantasia é uma faculdade muito importante. Sem ela não haveria artistas. Mas, como diz o povo, há coisas que nem ao diabo lembram. São estas pequenas fantasias que se apresentam tão só como originalidades, produto de ignorância crassa, de gosto (ou mau gosto) por novidade, da necessidade patológica de afirmação pela diferença.

Há duas espécies de rubricismo: coletivo e individualista. Não perceber, não interiorizar, nem realizar as indicações da celebração (as rubricas) é grave para a celebração (que  diríamos se  aplicássemos este princípio a um jogo de futebol…). Mas pior é o rubricismo individualista porque atinge a própria assembleia, faz da ação da Igreja que é a Liturgia, o “show de uma vedeta e defrauda as expectativas dos participantes.

E ainda há disso? Se há!

Há os que entendem dispensar uma das leituras da missa dominical (possibilidade apenas prevista para as missas com crianças), outros omitem o Glória em dia de festa e ignoram o Credo aos Domingos e solenidades para dedicar mais tempo a homilias fastidiosas com prejuízo da participação dos fiéis e gáudio de satanás. Alguns apresentam o pão e o vinho ao mesmo tempo, ignorando que a poesia cultiva o paralelismo, e muitos mais dispensam-se do lavabo (porventura porque supostamente não precisam: é só para pecadores). Alguns fazem já a fração na consagração, outros substituem o canto da fração (o Cordeiro de Deus) por um «canto de paz». Ainda há quem ponha a assembleia a recitar partes da anáfora ou orações que o celebrante deve rezar em silêncio. Proliferam versões musicadas de «Pai-Nossos», cheias de sentimento e mímica gestual, que se sobrepõem à santa mas insuperável monotonia da oração que o Senhor nos ensinou. Enquanto uns mantêm a rigidez de só dar a Comunhão na boca (já lá vai a pandemia!) e a quem estiver de joelhos (!), outros oferecem a píxide em “self-service”. Uns mandam estar de pé à consagração, outros sentados durante a Comunhão. Uns fazem meia dúzia de “homilias” durante a missa, outros nenhuma. Uns rezam a missa inteira do altar, outros começam a missa do ambão (ou melhor, da estante que faz as suas vezes). Uns dispensam-se da casula, outros apresentam-se com uma veste híbrida, ainda à procura de nome… etc.; etc. E não falemos já dos que constantemente remendam os textos litúrgicos com as suas «buchas» em variantes pouco refletidas mas depois rotineiramente repetidas, tanto mais fiéis aos seus próprios ditames subjetivos quanto menos observantes da sobriedade, equilíbrio e objetividade reinante nos textos e rubricas da Igreja.

Criatividade? Digamos antes: originalidades banais que só denotam falta de sentido de Igreja.

Que diríamos do maestro que, ao interpretar uma sinfonia de Beethoven, introduzisse ou suprimisse compassos, alterasse harmonias, atropelasse os ritmos… Os ouvintes reclamariam com toda a razão porque estariam a ser privados da criação genial do compositor o que só pode ser assegurado mediante a execução fiel da partitura autêntica. E, contudo, os grandes maestros são verdadeiramente cocriadores da obra musical e cada concerto é único, mesmo interpretando vezes sem  conta a mesma partitura.

Haverá obra de arte mais sublime que a celebração dos divinos mistérios que a Igreja recebeu de Seu Senhor e que fielmente transmite de geração em geração recorrendo ao concurso de todas as expressões humanas da arte e do estilo? Mozart terá dito que trocava toda a sua obra pela música gregoriana do prefácio… Mas aqui não é só o prefácio, é toda a celebração! Não esquecendo o que aqui se tem dito e repetido sobre a exigência de uma interpretação criativa que os próprios livros litúrgicos reclamam com variantes previstas e o espaço indispensável para a necessária adaptação, habitar os textos que a Igreja põe na nossa voz, e os ritos que a mesma Igreja confia ao nosso desempenho é o essencial da criatividade de que não nos podemos dispensar para celebrarmos dignamente os santos mistérios.