“Eles têm a vida deles”. Idosos sentem-se sozinhos em Portugal

A eles falta-lhes companhia. Às suas famílias falta tempo. O resultado é muitas vezes a solidão, compreendida ou não: “Há pessoas que não têm tempo, outras que não o arranjam”.

A vida corre, e eles andam, devagar. No dia internacional do idoso, 1 de outubro, a Renascença foi ouvir os testemunhos de várias pessoas que já se reformaram, e cujo ritmo de vida contrasta com a pressa que caracteriza a sociedade em Portugal.

99 anos de vida, 90 de trabalho

Joaquim Aguiar está sentado na mesa de um jardim. Obstinado na tarefa de ler o jornal, reage de forma quase imediata quando questionado sobre como é ser idoso em Portugal: “Quer que lhe diga que a vida está bem? Não está bem“.

Os problemas de saúde dificultam-lhe a rotina: “É assim a vida, temos de ir sofrendo”. Trabalhou no campo, em fábricas e veio para Lisboa para uma empresa de construção e demolição de edifícios. A conta é redonda: foram 90 anos de trabalho que lhe deram “para fazer uma casinha“.

A experiência vale pouco. A rotina da sociedade acelera o dia-a-dia, e os mais velhos têm dificuldades a acompanhar. “Até tenho aqui uma bengala para conseguir andar, e os mais novos caminham muito depressa e por vezes não há aquela compaixão pelos mais antigos“, lamenta Joaquim Aguiar.

A solidão não o afeta a ele, vive com o filha, o genro e os netos.

“Os velhos estão postos de parte”

“Já me reformei há muitos anos”, responde Luísa Cruz enquanto se ri, quando se lhe pergunta a idade. Tem 84 anos e diz ter uma “reforma menos boa”. As pessoas como ela “vivem na mesma“, descreve resignada.

Há “tanta coisa” que falta em Portugal, aponta Luísa. “Mas isso sempre faltou, não é só agora”, ressalva, bem-disposta.

Sobre a solidão, tem uma teoria: “Há pessoas que não têm tempo, outras que não o arranjam“.

A frase sintetiza o que pensa: a velocidade a que vivem as pessoas em idade ativa tira-lhes disponibilidade para dar atenção aos idosos, mas é uma desculpa com as costas largas.

“Eu não tenho razão de queixa, mas as pessoas passam a correr, porque querem ou porque não podem parar. Os velhos estão postos de parte“, lamenta Luísa Cruz.

Caminha pelo passeio de forma convicta e suave, mas faz questão de lembrar quem não pode fazê-lo: “Há passeios e associações, mas quando as pessoas não têm mobilidade, ninguém se lembra delas”, critica.

“Ainda somos a velharia que só serve para comer os impostos dos mais novos”

Na paragem de autocarro está Fernando Silva. O autocarro que vai apanhar está prestes a passar quando a Renascença o importuna.

Não quer apanhar o autocarro? “Deixe estar, o que é que eu tenho senão o tempo?“.

E detém-se: “há de vir outro”, afirma.

Tem 80 anos, muita experiência e não tem pressa. “Sinto-me relativamente bem, mas ainda falta muita coisa”, defende e aponta para elas: saúde, prestações sociais e políticas de habitação.

Trabalhou no estrangeiro e queixa-se de que, em Portugal, os idosos são menos considerados. “Temos muito a aprender. Lá por fora os reformados são mais acarinhados”, garante.

Aqui ainda somos aquela velharia que só serve para comer os impostos dos mais novos“, critica Fernando Silva.

Ele tem tempo, mas nem todos têm. Tem dois filhos e cinco netos. “Eles têm a vida deles. Os seus objetivos”.

Diz compreender a falta de disponibilidade de quem trabalha ou estuda, mas não hesita em diagnosticar a consequência disso. “Quem é que fica para trás na corrida? Somos nós, os velhos”.

(inf: Rádio Renascença)