O Cinema visto pela Teologia (81): “Uma boa pessoa”

​​Por Alexandre Freire Duarte

É triste ver um filme quase tão bom ser tão medíocre. Isto é, justamente, o que temos em “Uma boa pessoa: um drama poderoso, cortante, laborioso e dolorosamente realista, mas com uma trama pouco original que soa tão a verdadeiro quão a uma banal repetição. As ideias estão lá, bem como, quer o sentido do detalhe a respeito da condição humana fraturada, quer a envolvência entre as personagens, e nada é feito para enganar. Todavia e mesmo com florires da câmara, o todo é demasiado subtil para o seu bem.

Contudo, todas as falhas parecem desaparecer, como que por magia, pelo desempenho magnético, emocionalmente marcante, imersivo e crispante de Pugh e Freeman. Equilibrando formidavelmente a seriedade, o humor e o trágico, ambos, muito bem acompanhados pelos demais atores, são capazes de, sem artimanhas, mostrarem, de um modo tocante, os seus espectros interiores com uma ternura, dilaceração e veracidade que não nos deixa impávidos em momento algum. Mesmo naqueles em que a história resvala para a aduzida mediocridade e parece estar mesmo a perder-se em si mesma.

Como teólogo fugirei à tentação de dizer, facilmente, que esta obra é essencialmente sobre a perda e como se pode superar a dor a ela inerente (aqui já virei) e arrisco a afirmar que é sobre se a principal consequência do pecado original não foi o de termos passado a julgar as pessoas, ainda mais pelas aparências, segundo nos parecem “boas” ou “más”. Será que Deus vê a realidade em geral, e nós, seus filhos, sob este prisma? Claro que isto não nega a existência do “mal” e do “bem”, mas faz-me pensar se estaremos alguma vez nas condições requeridas para realizarmos um tal juízo. De qualquer modo, estimo que se viermos a estar, em Cristo e com Este, nessas condições, cada um de nós só ajuizará a si próprio; a respeito do que, em si mesmo, é trigo e joio.

Dito isto, voltemos àquele pode. Não nos equivoquemos: a psicologia tem muito a dizer e a fazer, mas fica-se, devido à sua identidade, pelo interior, enquanto a espiritualidade vai até ao nosso íntimo. Esse íntimo onde estão (nunca sozinhas, antes submergidas na frescura do Espírito) as raízes, por vezes indomadas ou traumatizadas, de quem somos. Esse íntimo a partir do qual se pode reconstruir alguém pelo perdão, que é sempre um não cristalizar o outro no (não) feito, antes o dar o passo de amar (porventura sem não gostar) até que uma reciprocidade se possa (r)estabelecer abraçada por Jesus.

Terrível o mundo da droga e da sexualidade genital sem a consciência do que se está a fazer. Não se pense que isso só acontece com os demais. Não. As drogas, até à dependência que leva aos roubos de familiares, atravessam uma sociedade de (incutidos em vista do dinheiro) ansiosos e deprimidos devido à falta de capacidades, experiência de vida e esperança para realizarem o que sonharam ou deles se esperava. Mataram a Deus; drogaram o homem. A nós, que vivemos o Deus Vivo, incumbe dar-lhes as mãos.

O sexo genital, esse, só por milagre não é conhecido, nos seus excessos, por um aluno com doze anos, a quem também ensinam que “só” somos animais. Toda a beleza, doçura, humanização e crescimento espiritual conjugal que esse sexo poderia comportar, tenderá, assim, a perder-se num contacto de peles que nunca chegará a ser um contacto entre pessoas. Falemos disto muito antes dos casamentos e com toda a letícia no Senhor.

(* EUA, Canada, 2023; dirigido por Zach Braff; com Florence Pugh, Morgan Freeman, Chinaza Uche e Molly Shannon)