Papa: acolher o migrante juntos, com humanidade, sem naufragar a esperança

“Enfrentemos, unidos, os problemas, não façamos naufragar a esperança”, exortou Francisco no Momento de Recolhimento com os Líderes Religiosos e representantes de associações que trabalham em prol dos migrantes. “Nós, crentes, devemos ser modelo de acolhimento recíproco e fraterno”, acrescentou ele, sem nos habituarmos com os irmãos “afogados no medo”: “perante um drama assim não servem palavras, mas fatos; e, antes ainda, serve humanidade: silêncio, pranto, compaixão e oração”.

“Diante de nós, temos o mar, fonte de vida; mas este lugar evoca a tragédia dos naufrágios, que provocam a morte. Estamos reunidos em memória daqueles que não sobreviveram, que não foram salvos. Não nos habituemos a considerar os naufrágios como meras notícias de jornal, nem os mortos no mar como números: são nomes e apelidos, são rostos e histórias, são vidas despedaçadas e sonhos desfeitos. Penso em muitos irmãos e irmãs afogados no medo, juntamente com as esperanças que traziam no coração. Perante um drama assim não servem palavras, mas fatos; e, antes ainda, serve humanidade: silêncio, pranto, compaixão e oração. Convido vocês agora a um momento de silêncio em memória destes nossos irmãos e irmãs: deixemo-nos tocar pelas suas tragédias.”

O Papa usou de palavras cruciais para dar início à sua intervenção no Momento de Recolhimento com os Líderes Religiosos junto ao Memorial dedicado aos marinheiros e migrantes desaparecidos em Marselha – naquela etapa considerada “sem dúvidas como uma das mais emocionantes” da viagem apostólica à França, recordou o arcebispo local, dom Jean-Marc Aveline, ao anteceder a mensagem do Pontífice. O cardeal, representando os responsáveis das associações que trabalham em prol dos migrantes e presentes no encontro, também agradeceu calorosamente Francisco “pela coragem e tenacidade com que, durante 10 anos, desde sua primeira viagem a Lampedusa” defende a causa.

Socorrer é um dever de civilização!

Nesta sexta-feira (22), então, no segundo discurso oficial da viagem apostólica à França, Francisco recordou as tantas pessoas que não conseguiram superar o Mediterrâneo ao fugir “de conflitos, pobreza e calamidades ambientais”, fazendo com que “este mar esplêndido” se tornasse “um enorme cemitério”. Ao citar novamente o livro-testemunho Fratellino (A. Arzallus Antia – I. Balde, Fratellino, Milão 2021, 107), sobre a “tribulada viagem” de um migrante da República da Guiné até à Europa, o Papa alertou para a “encruzilhada de civilização” na qual nos encontramos: com a fraternidade de um lado do Mar Mediterrâneo e a indiferença do outro.

“Não podemos resignar-nos a ver seres humanos tratados como mercadoria de troca, encarcerados e torturados de maneira atroz; não podemos mais assistir às tragédias dos naufrágios, devido a tráficos odiosos e ao fanatismo da indiferença. As pessoas que correm o risco de se afogar, quando são abandonadas no meio das ondas, devem ser socorridas. É um dever de humanidade, é um dever de civilização!”

O Papa foi contundente em discurso ao exortar o cuidado aos mais frágeis, “superando a paralisia do medo e o desinteresse”, a comerçar pelo exemplo dos próprios “representantes de diversas religiões”: “na raiz dos três monoteísmos mediterrânicos, temos o acolhimento, o amor pelo estrangeiro em nome de Deus”. E Francisco acrescentou:

“Nós, crentes, devemos ser modelo de acolhimento recíproco e fraterno. Muitas vezes não são fáceis as relações entre os grupos religiosos, com a traça do extremismo e a peste ideológica do fundamentalismo que corroem a vida real das comunidades.”

Da França para o mundo por um mosaico de paz

Exortando, assim, sentimentos de amor ao próximo e não de ódio, o Papa buscou a referência do pluralismo religioso de Marselha para enaltecer e agradecer o opção “pela via do encontro: obrigado pelo empenho solidário e concreto de vocês na promoção humana e na integração”.

“Vocês são a Marselha do futuro. Continuem sem desanimar para que esta cidade seja um mosaico de esperança para a França, a Europa e o mundo. […] Irmãos, irmãs, enfrentemos, unidos, os problemas, não façamos naufragar a esperança, juntos componhamos um mosaico de paz!”

Ao final do Momento de Recolhimento e após as intenções de oração feitas por associações que trabalham pela causa, o Papa, junto a dois migrantes e aos líderes religiosos, se dirige ao monumento dos desaparecidos no mar e deposita uma coroa de flores.

(inf: Vatican News)