As sonoridades da Páscoa

Por João Alves Dias

Quando o tempo pascal se aproxima do fim, ainda ecoam em mim as campainhas e os foguetes do anúncio da Ressurreição.

O Natal é vivido no seio da família, a Páscoa extravasa para a rua e faz do ‘compasso’ o seu ‘precónio’ comunitário.

Nasceu lindo o domingo de Pascoela. A natureza acordou em festa. O sol, lá longe, enchia de luz os refegos do Barroso e da Cabreira e, bem perto, revia-se nas gotículas de orvalho nos primeiros gamões das ramadas. As flores coloriam os montes e debruavam os caminhos.  E, por entre as vergônteas que despontavam, os passarinhos cantavam loas ao Criador.

E eu, saudoso, rememorei o que cantávamos na escola primária: “A primavera vai e volta sempre; a mocidade vai e não volta mais.”

Nesse dia, a paróquia da Faia, em Cabeceiras de Basto, mantendo uma velha tradição, realizou a ’Visita Pascal’. A rua fez-se romaria ao som da ‘banda de música’. O estrelejar dos foguetes pelas quebradas das serras alongavam no espaço e prolongavam no tempo as aleluias pascais.

Muitas famílias retomaram o costume, interrompido pela pandemia, e convidaram os amigos para ir as suas casas beijar a cruz. O etnógrafo José Machado, no grupo ‘Vamos bailar à Senhora’, assim descreveu, no facebook, um desses convívios:

“A Pascoela na Faia, Arco de Baúlhe, em casa de amigos, agora sem a presença do anfitrião por nos ter deixado há quatro anos e meio, o professor Guilherme Pereira de Magalhães. A esposa, os filhos e noras decidiram retomar este momento de união e de amizade e a gente, como eu e outros, apreciamos a generosidade do convite e a recepção acolhedora. A Páscoa, com banda de música a entrar pelo eido da casa, com foguetes a assinalar a presença da Cruz no interior, com a bênção e a reverência ao Senhor, constitui um rito de cumprimento de uma tradição cultural e religiosa. Obrigado à família”.

Por amável convite, participo, há muitos anos, nesse encontro sempre renovado de amigos, alguns vindos de bem longe.

Após o almoço e enquanto, na eira, aguardávamos a chegada do compasso, as conversas iam fluindo… Foi então que o Duarte, um filho da casa, partilhou comigo um texto que tinha no seu telemóvel:

“S. Martinho de Anta, 8 de Abril de 1950

Aleluia! O repicar dos sinos de dezenas de freguesias e o estralejar de foguetes de todo o distrito chegam ao cimo destas serras onde descanso. É um alvoroço que se vai alastrando, alado e fecundante como o pólen que passa em turbilhões, e que põe em comunicação telepática o mundo vegetal.

– Boas festas! Aleluia!

Não acontece nada, nenhum cadáver acorda, as videiras e os castanheiros continuam a abrolhar no seu ritmo normal. Contudo, caem bem na paisagem estas saudações de regozijo, entrelaçadas de sons contentes, que a pintam de não sei que esperança.

A vida precisa de vez em quando de sobressaltos assim, simbólicos e promissores. Periodicamente atada como um feixe por certos vincilhos tradicionais e optimistas, ficam mais fraternos os seus vimes, mais unidos os seus nervos. Aleluia! E a palavra, em si, tem já um magnetismo de aliciação. Justifica a primavera que vem, promete flores e frutos.

Cristo, no céu, talvez se ria. Mas necessitamos e necessitaremos ainda por muito tempo da sua paixão, morte e ressurreição… anuais.

E um maravilhoso pretexto para comer amêndoas, beber vinho fino, e consentir que um milagre abstracto desfaça o nó concreto do cepticismo estéril e nauseante que nos aperta o coração. (Miguel Torga, in Diário V”)

Demorámo-nos a refletir sobre o “cepticismo estéril e nauseante que aperta o coração” deste grande escritor transmontano cuja vida “é uma corda esticada entre dois mundos”, o do menino religioso que ajudava à Missa em São Martinho de Anta – a sua ‘Agarez’ iletrada – e o intelectual agnóstico de Coimbra – a sua ‘Agarez alfabeta’.

Numa entrevista antiga, reproduzida no ‘Espaço Miguel Torga’, doeu-me ouvi-lo dizer: “Sou uma encruzilhada sem saída

Esta inquietude levava-o a buscar lenitivo na “pureza dum amanhecer sem ocaso”, na sua terra natal.

A terra é sempre o berço que prolonga o regaço maternal… Como são gostosas as tonalidades da infância!…

Que o espírito pascal nos ajude a encontrar saída para as nossas encruzilhadas e nos faça ouvir as palavras que o Papa Francisco disse, na Hungria, no passado dia trinta:

“Por favor, abramos as portas! Procuremos ser uma porta aberta, uma porta que nunca se fecha na cara de ninguém”.