“Não basta pedir perdão”

Intenção de oração do Papa para o mês de março sobre os abusos não poderia ser mais atual na Igreja Católica em Portugal. Recordemos que no âmbito deste problema o Papa convida-nos a dizer não ao clericalismo.

Neste mês de março o Papa Francisco propõe que rezemos pelas vítimas de abusos na Igreja. A intenção de oração do Papa para o mês de março sobre os abusos não poderia ser mais atual na Igreja Católica em Portugal devido à publicação no passado dia 13 de fevereiro do relatório realizado pela Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica.

Após apenas dez meses de trabalho, a Comissão Independente recolheu testemunhos entre os meses de janeiro e outubro de 2022 e apresenta um relatório com 485 páginas, que validou o relato de 512 testemunhos de abusos sexuais. Um estudo que aponta para uma rede de vítimas num número mínimo de 4815 ocorridos entre 1950 e 2022.

O habitual vídeo mensal do Papa foi publicado na passada quinta-feira dia 2 de março e nele o Santo Padre afirma que “a Igreja não pode tentar esconder a tragédia dos abusos, quaisquer que sejam”. Afirma mesmo que “a Igreja deve ser um exemplo para ajudar a resolvê-los, tornando-os conhecidos na sociedade e nas famílias”.

“Pedir perdão é necessário, mas não é suficiente. Pedir perdão é bom para as vítimas, porque são elas que devem estar “no centro” de tudo. A sua dor, os seus danos psicológicos podem começar a cicatrizar se encontrarem respostas; ações concretas para reparar os horrores que sofreram e evitar que se repitam”, diz Francisco no vídeo agora publicado.

O Papa reafirma que “não basta pedir perdão”. “Diante dos abusos, especialmente aqueles cometidos por membros da Igreja, não basta pedir perdão”, diz o Santo Padre.

“Rezemos pelos que sofrem por causa do mal cometido pelos membros da comunidade eclesial: para que encontrem na própria Igreja uma resposta concreta às suas dores e aos seus sofrimentos”, conclui o Papa na sua mensagem vídeo.

Recordemos que no âmbito deste problema o Papa convida-nos a dizer não ao clericalismo. Salienta que o clericalismo permite “perpetuar” os abusos na Igreja, pois “gera uma rutura no corpo eclesial”.

Em particular, façamos memória das palavras do Papa Francisco na sua Carta ao Povo de Deus, em agosto de 2018, a propósito da divulgação de um relatório de abusos sexuais na Pensilvânia nos Estados Unidos da América.

Nesse documento, Francisco escreve que o clericalismo “gera uma rutura no corpo eclesial que beneficia e ajuda a perpetuar muitos dos males que denunciamos hoje. Dizer não ao abuso, é dizer energicamente não a qualquer forma de clericalismo”, escreve o pontífice.

“É imperativo que nós, como Igreja, possamos reconhecer e condenar, com dor e vergonha, as atrocidades cometidas por pessoas consagradas, clérigos, e inclusive por todos aqueles que tinham a missão de assistir e cuidar dos mais vulneráveis”, declara Francisco na sua Carta ao Povo de Deus de 2018.

RS