Bento XVI e a Liturgia (3)

Foto: João Lopes Cardoso, 14 de maio 2010

Por Secretariado Diocesano da Liturgia

A revista «Família Cristã», no seu número de maio de 2004, publicou uma entrevista com o Cardeal Joseph Ratzinger, em que ele declarava, de forma concludente: «A liturgia é por si só comunicativa e pastoral. Oponho-me aos que pensam que ela só se torna mais comunicativa se se transformar em espetáculo, nu­ma espécie de show, reduzindo a bem pou­ca coisa a grande obra de arte que é a liturgia, quando é celebrada bem e com participação interior».

Eis uma resposta muito concorde com as reflexões de Francisco na Carta Apostólica Desiderio desideravi. Porque a arte de celebrar que aí se advoga nada tem a ver com o afã narcisista de tantas autoafirmações supostamente criativas, e que o mais das vezes não passam de ignorância atrevida e leviandade iconoclasta que, menosprezando a sublime obra de arte que é a liturgia, a troca por subprodutos da pseudocultura do espetáculo e do entretenimento. Com o afã de celebrações muito comunicativas na verdade mortifica-se (impede-se?) a superior comunicação humano-divina que é a própria essência da liturgia, naturalmente comunicativa e pastoral.

Um campo em que isto aconteceu de forma dramática foi o da música: «Uma Igreja que se reduza apenas a fazer música “corrente” cai no inepto e torna-se ela própria inepta. A Igreja tem o dever de ser também “cidade da glória”, lugar onde são recolhidas e levadas ao ouvido de Deus as vozes mais profundas da humanidade. A Igreja não pode satisfazer-se apenas com o ordinário, com o usual: deve reerguer a voz do Cosmos, glorificando o Criador e desvelando ao próprio Cosmos a sua magnificência, tornando-o belo, habitável, humano […] Os cristãos não devem contentar­‑se facilmente, devem continuar a fazer da sua Igreja um lar do belo – e portanto do verdadeiro – sem o qual o mundo se torna a primeira volta do inferno» (Rapporto, 134).

E não se tema o argumento falacioso do espírito de pobreza, da simplicidade e do despojamento. A renúncia à solenidade e à beleza redunda em traição e não em serviço aos mais carenciados. De facto a «riqueza» litúrgica é património comum, «é riqueza de todos, também dos pobres, que de facto a desejam e dela não se escandalizam». A própria piedade popular testemunha abundantemente que os pobres não poupam quando se trata da glória de Deus e da beleza da sua casa (Rapporto, 135).

Aquando de um encontro em Guadalajara com os presidentes de Comissões Episcopais da América Latina para a doutrina da fé, o Cardeal Ratzinger pronunciou uma notável conferência sobre a «situação atual da fé e da teologia» (cf. L’Osservatore Romano de 27-10-1996) denunciando o relativismo como «o problema central da fé na hora atual». Nesse contexto, abordou os problemas colocados pela New Age («Nova Era») que «for­nece um modelo totalmente antirracionalista de religião, uma moderna “mística” na qual o ab­soluto não pode ser crido mas somente experimentado»: «A redenção está no desenfrear do eu, na sua imersão na exuberância do vital, no retorno ao Todo. Busca-se o êxtase, a embriaguez do infinito, que podem acontecer na música embria­gadora, no ritmo, na dança, no frenesim de luzes e sombras, na massa humana. […]. Se a “sóbria ebriedade” do mistério cristão não nos pode embriagar de Deus, então há que invocar a embriaguez real de êxtases eficazes, cuja paixão arrebata e nos converte – ao menos por um momento – em deuses, e nos deixa perceber num instante o prazer do infinito e olvidar a miséria do finito».

O conferencista denunciava uma atitude de «pragmatismo cinzento» em que «a realidade da fé se consome e degrada no mesquinho». Assim aconteceu, nomeadamente, no processo de receção da reforma litúrgica. «As diversas fases da reforma litúrgica deixaram que se introduzisse a opinião de que a liturgia se pode mudar arbitrariamente». Numa escalada chegou-se a uma prática em que a comunidade local se sentia autorizada a fazer da celebração não já o «lugar» da epifania assombrosa da Páscoa do seu Senhor mas antes o espaço da sua própria autoexpressão. Após os exageros do racionalismo, o cansaço da pura liturgia falada levava à aspiração de «uma liturgia vivencial que depressa se aproximava das tendências do New Age: procura-se o embriagador e extático em vez da “logikê latréia”, da “rationabilis oblatio” [culto espiritual], de que fala Paulo e, com ele, a liturgia romana (Rm 12, 1)».

A conferência terminava com uma nota de otimismo. Porque, apesar de tudo, «a fé completa e serena do Novo Testamento e da Igreja de todos os tempos» «está de acordo com o que o homem é» e com a verdadeira essência da Liturgia.