O rio da minha terra e a ’Chã de Ferreira’

Por João Alves Dias

No ‘Dia de Reis’, como ia cheio o rio da minha infância!… De muitas águas e de, não menos, memórias e saudades…

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,

Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia. “ (Fernando Pessoa)

Era assim, também, o rio da minha terra. Nascido no lugar da Ribeira, fui menino nas suas margens. Não tinha nome, era simplesmente ‘rio’. Os outros eram uma aprendizagem, um conhecimento. O da minha aldeia era uma vivência. Não vinha nos livros. Estava aí. Não precisava de nome. Como os nossos pais… Fiquei surpreendido quando alguém me disse que se chamava ‘Ferreira’. Ferreira, para mim,  era nome de gente…

O primeiro rio de que soube o nome foi o “Rio Jordão” onde Nossa Senhora ‘ia lavar os cueirinhos’ do Menino Jesus. Os outros, aprendi-os na escola. Bem cedo surgiu em mim o desejo de conhecer as suas nascentes.

A primeira a que subi foi ao ‘Mondeguinho, nascente do rio Mondego’, na serra da Estrela. E bebi na sua bica.

O desejo de ir à nascente do Douro concretizou-se há uns anos. E não foi coisa fácil. Depois de passar em Duruelo de la Sierra e Castroviejo, subimos a pé até aos ‘Picos de Urbion’ a 2160 metros e refrescámos os pés na sua primeira ‘barragem’, uma pequena poça junto à nascente.

Seguiram-se as do Minho, em Pedregal de Irímia (Lugo); do Cávado na serra do Larouco; do Sousa, em Friande (Felgueiras); do Leça em Monte Córdova (Santo Tirso); do Côa, na serra das Mesas (Sabugal); do Vouga na serra da Lapa; do Dão em Aguiar da Beira…

E a nascente do rio da minha aldeia? Sobre essa nunca me interroguei, porque, como escreveu Pessoa: “Ninguém nunca pensou no que há para além/Do rio da minha aldeia. /O rio da minha aldeia não faz pensar em nada /Quem está ao pé dele está só ao pé dele”. Era assim, é assim que me sinto quando me refresco nas suas águas.

Há bem pouco tempo e incentivado por estes versos, fui em busca da sua nascente, na antiga “Chã de Ferreira”. Terra de muita água, são múltiplas as fontes que para ele jorram. Limitei-me a ir procurar aquela que, sendo a maior, é assinalada como a nascente. E encontrei-a no lugar da Jóia em Freamunde. O volume das suas águas levou-me a dizer, com orgulho: “A nascente do rio da ‘minha aldeia’, é maior que a do Douro”. E é de facto… Sentado na borda dum lavadouro, descansei no silêncio do “Parque de Lazer” a ouvir o coaxar das rãs por entre as verduras dos valados.

A abundância de águas e a fertilidade do solo atraíram povoadores desde, pelo menos, o neolítico como bem testemunha o ‘Dólmen da Leira Longa’, em Lamoso, cuja construção remonta ao III milénio a. C. Os dólmens (antas, orcas), importantes monumentos funerários, assinalam a sedentarização das primeiras povoações agrícolas.

Testemunho mais recente, mas muito significativo da ação humana, vamos encontrá-lo na Citânia de Sanfins com vestígios que recuam ao século XI a. C.. Povoado de origem castreja, depois romanizado, foi grande entre os séculos II a.C. e o século IV d.C.. Encantou-me a “pedra formosa” do seu balneário…

No período da Reconquista Cristã, terão sido muitos os povoadores, vindos do norte da Península, que aqui se fixaram. Sinal maior de prosperidade é o Mosteiro de Ferreira cuja fundação remonta ao século X. O edifício atual, datado do século XII, “é um dos mais cuidados monumentos do românico português”. Para além da excelência da sua arquitetura, nele se “conjugam em harmonia alçados e motivos ornamentais oriundos de diversas regiões e oficinas: Zamora-Compostela, Coimbra-Porto e Braga-Unhão”.

Hoje, Paços de Ferreira – “Capital do Móvel” – faz jus à sua história e abre-se a um futuro de progresso bem indiciado na beleza dos seus jardins.

Aqui iniciei a minha atividade docente num ambiente de grande cordialidade. Perduram em mim amizades e memórias afetuosas.

Terra de gente acolhedora, é boa para se viver e linda para se visitar.