O Cinema visto pela Teologia (50): “Tudo em todo o Lado ao mesmo Tempo”

Uma leitura do filme “Tudo em todo o Lado ao mesmo Tempo*

Por Alexandre Freire Duarte

Eis-nos “entrados” em 2023. Nada melhor do que trazer até aqui, com imenso gosto, o filme que considero o melhor de 2022: “Tudo em todo o Lado ao mesmo Tempo”. Já o vi há quase um ano, mas ainda penso nele quando vejo, ante mim e nas aulas de Teologia, os corajosos e especiais jovens que desejam ser sacerdotes.

Com este filme encontramo-nos com uma receita cinematográfica de “géneros mexidos” que, embrulhada com a pseudocientífica teoria dos “multiversos” serve, genialmente, de suporte para uma profunda e séria reflexão emocional e metafísica sobre o sentido da vida. Se, numa forma crassa de niilismo, nada tem valor nem é duradouro, por que continuamos a querer viver? Perguntar isto até poderia ser banal – não o é –, mas nesta obra adquire proporções có(s)micas, cheias de grotescas e espantosas pantominas visuais que são uma lufada de ar fresco para o cinema.

O filme é uma obra-prima cinemática: a direção e a edição são estupendas (os cortes nas sequências são tão engenhosos como perfeitos); as personagens são humanamente densas e absolutamente credíveis; Yeoh é uma virtuosa força da natureza, pintando sentimentos diversos apenas com o mudar do olhar e Quan é, na reserva da sua figura, uma enorme surpresa; por fim, as cenas de ação possuem uma índole balética que combina requintadamente com os introspetivos grandes ângulos.

Sim: à primeira vista nada faz sentido se nos dirigimos para morrer e desaparecer (eis uma angústia muito própria dos jovens da atual geração). Mas teologicamente falando, ninguém nasce para ficar pela morte, mas para, já antes desta, viver em Deus. Este viver, como mostra este filme (certamente sem preocupações crentes) vai-se fiando com ocasiões, breves ou longas, de bondade, honradez, relação e, sobretudo, amor e amor perdoante. Só assim se superam os momentos de melindre e desatenção que, casualmente, podem surgir entre nós.

Neste sentido, não há escolhas medíocres exceto se resultarem do amor, e se elas surgirem (nutrindo a dolorosa sensação de vazio), o seguir o caminho inverso torna-se inadiável, elegendo-se a força do amor crístico e eclesial sobre a (auto-)rejeição e a (auto-)censura. Certo: nós, sozinhos, não conseguimos fazer este volte-face, mas com Deus e os demais, sim – no caso concreto desta obra, os membros da intergeracional família, que de remotos se fazem próximos pelo autocontrole, o arrojo, a cooperação, e o amor afetivo e efetivo. E, na verdade, buscar um utópico Universo sem dor ser-nos-ia fatal, pois tirar esta à vida é tirar a vida à existência.

Este filme mostra isto de modo tão claro, quão teologicamente atinado: é melhor viver-se “num Cosmos” em que se sofre por se ser capaz de amar, ser amado e apreciar unidos o belo e a verdade (mesmo com ou sem as suas chatices, cuidados, falhas e fraquezas mais ou menos diárias), do que num em que a dor fosse inexistente e não se pudesse saber o que era tudo aquilo. Em que se ignorasse o difícil e cruciforme “perdoo-te e estarei sempre contigo” com um amor que, não salta tais problemas, mas reconhece-os, admite-os, e, por fim, atravessa-os.

(* EUA, 2022; dirigido por Dan Kwane Daniel Scheinert; com Michelle Yeoh, Ke Huy Quan, Stephanie Hsu e Jamie Lee Curtis)