Natal: celebremos o “Mistério”

Foto: Vatican News

Por Secretariado Diocesano da Liturgia

O mistério de Cristo é sempre integralmente anunciado, professado, contemplado, celebrado e vivido no memorial eucarístico. Já São Paulo o ensinava à primeira geração cristã: «Todas as vezes que comerdes desse pão e beberdes desse cálice, anunciareis a morte do Senhor até que Ele venha» (1 Cor 11, 26).  Entretanto, a perceção e experiência que podemos ter deste mistério total é sempre parcial, limitada, fragmentária, sequencial, diacrónica. Por isso a Igreja, na sua solicitude pedagógica e maternal, querendo proporcionar aos seus filhos o alimento sólido e integral de todo o mistério vivificante do Seu Divino Esposo, decidiu parti-lo e reparti-lo em pequeninos. E assim nasceu e se desenvolveu o ano litúrgico (cf. SC 102).

Os dois focos a partir dos quais se desenha a elipse do ano litúrgico são o domingo – «Páscoa semanal» – e a Páscoa anual. De facto, o «ciclo da Incarnação» (Advento-Natal-Epifania) mais não é do que uma projeção do ciclo pascal (Quaresma-Páscoa-Pentecostes). É o que hoje resulta do estudo científico sobre as origens da própria data do Natal/Epifania que parece ter sido calculada a partir da data da Páscoa… O mesmo, aliás, parece ter acontecido na redação dos Evangelhos: do núcleo primitivo do anúncio (Paixão, Morte, Ressurreição) foi-se remontando, progressivamente, até ao início da vida pública de Jesus (São Marcos), à sua infância (Mateus e Lucas) e, até, à sua preexistência eterna na Trindade (João). A exegese bíblica mostra como a redação dos relatos evangélicos da infância de Jesus pressupõe e antecipa a experiência pascal.

A emergência da celebração litúrgica do Natal/Epifania e a sua progressiva importância pastoral está também relacionada com o progresso da reflexão teológica sobre o mistério de Cristo, ocasionado pelos debates que levaram à fixação do dogma trinitário e cristológico nos séculos IV e V. As aquisições dos primeiros concílios ecuménicos (de Niceia a Calcedónia), enriqueceram indubitavelmente o conteúdo da celebração litúrgica dos mistérios da Incarnação do Verbo e da Maternidade de Maria. Releia-se, a propósito, a pregação de Santo Agostinho e do papa S. Leão Magno.

Na génese do ciclo natalício teve também o seu peso a Liturgia local da Palestina, com celebrações ligadas aos lugares do nascimento de Jesus na Gruta de Belém e na basílica da Natividade. A peregrina Egéria, proveniente do Noroeste da nossa Ibéria, já situava em Belém uma vigília solene na noite de Natal (cerca do ano 383).

A celebração atual da solenidade do Natal desdobra-se em 4 Missas: Vigília (na tarde de 24 de Dezembro), Noite (a chamada “Missa do galo), Aurora e Dia. Cada uma destas celebrações dispõe de formulários completos com leituras e orações próprias.

A missa da noite – tradicionalmente celebrada à meia noite mas que pode celebrar-se noutras horas noturnas – inspira-se na tradição que situa em plena noite o nascimento de Jesus. As narrações apócrifas falam do encantamento da natureza e da gruta inundada de luz. Ao mistério do Natal aplica-se a meditação pascal de Sab 18, 14-15: «Quando um silêncio profundo tudo envolvia e a noite ia a meio do seu curso, a vossa Palavra omnipotente, ó Deus, desceu do céu, do seu trono real, qual guerreiro invencível». Característico desta Misa é o relato evangélico do nascimento de Jesus (Lc 2, 1-14) que termina com o canto dos anjos, embrião da grande doxologia, o hino Glória a Deus nas alturas que neste dia assume uma particular relevância. Na missa da aurora, o Evangelho narra o encontro dos pastores com o Menino. Os textos eucológicos desenvolvem o simbolismo da luz. Na missa do Dia, anuncia-se o mistério da Incarnação segundo a teologia de S. João (1, 1-18) e da Carta aos Hebreus. Os grandes temas dos textos litúrgicos (luz, encontro, admirável permuta [= Com­mercium], núpcias, nova criação…) não limitam o Natal a uma «festa de aniversário» mas apresentam-no como “Mistério” (manifestação atual da Salvação presente e comunicada no acontecimento celebrado), perspetiva já valorizada por São Leão Magno (séc. V).

P.S. Como em anos anteriores, sugerimos o canto ou proclamação solene da Calenda de Natal, no início da Missa da Noite ou noutra qualquer do Dia de Natal. O texto encontra-se no Martirológio Romano no dia 25 de dezembro (texto disponível com «link» para a partitura em https://www.liturgia.pt/files/partituras/CalendaNatal.pdf).